Vorcaro diz ter pago R$ 30 milhões em dinheiro vivo por filme sobre Lula e põe em xeque o discurso do PT no caso Master

Por Márcio Queiroz Vítor

Editoria: Política

Daniel Vorcaro afirma ter repassado R$ 30 milhões em espécie para documentário sobre Lula. Revelação da Veja levanta questionamentos sobre o caso Master.

Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, citado em reportagem sobre suposto financiamento de documentário sobre L

Foto: Divulgação

Por Marcio Queiroz Vitor

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master e preso em Brasília desde março, sustenta ter entregue dinheiro vivo para custear um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em troca de acesso a fundos de pensão ligados a estatais federais. A versão consta de um áudio e de um anexo de proposta de delação premiada revelados pela revista Veja nesta sexta-feira (9), a pouco mais de duas semanas do segundo turno da eleição presidencial, em que Lula disputa a reeleição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).

O caso Master é tratado pela Polícia Federal como uma das maiores fraudes bancárias já registradas no país. As provas reunidas pelos investigadores mostram que Vorcaro mantinha interlocução com lideranças de praticamente todo o espectro partidário, do PL ao PT, e com integrantes dos três Poderes.

Até aqui, o desgaste político recaía com mais força sobre o campo bolsonarista: Lula vinha usando o escândalo para atacar Flávio Bolsonaro, flagrado em negociações com o banqueiro para financiar de maneira legal, o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Em entrevista, o presidente chegou a cobrar do adversário explicações sobre R$ 130 milhões que teriam saído de Vorcaro para a produção sobre o pai.

Ainda em maio, quando aliados de Flávio passaram a espalhar nos bastidores que o banqueiro também teria colocado dinheiro em produções sobre Lula, o governo negou qualquer relação financeira com Vorcaro.

Segundo o material obtido pela revista, a aproximação com o PT teria sido costurada por Augusto Lima, então sócio de Vorcaro e CEO do Master, com o apoio de lideranças petistas da Bahia. O senador Jaques Wagner, à época líder do governo no Senado, teria intermediado o primeiro encontro com João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do partido.

Nessa reunião, de acordo com o relato do banqueiro, ficou combinado que, para garantir votos favoráveis ao credenciamento do Master junto aos fundos ligados ao Banco do Brasil, à Caixa Asset e à Previ, o banco deveria antecipar cerca de R$ 30 milhões em espécie, por fora, destinados a despesas de um documentário sobre Lula gravado no exterior, além de valores não especificados repassados ao Instituto Lula, dirigido por Paulo Okamotto, amigo do presidente.

O trecho do documento reproduzido na reportagem menciona ainda que, após o credenciamento, a contrapartida ao grupo político seria de 10% de tudo o que o banco captasse.

A produção citada é o documentário Lula, do cineasta americano Oliver Stone, que reúne depoimentos de aliados do presidente, como o advogado Walfrido Warde.

No áudio, Vorcaro contrapõe os dois casos: diz que o aporte no filme sobre Lula "foi por fora, foi errado", enquanto o de Flávio teria sido patrocínio regular.

A reportagem também associa o esquema ao hoje ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Em outubro de 2024, quando ainda chefiava a Secretaria de Relações Institucionais, Padilha jantou na casa de Vorcaro em Brasília, encontro que não constava de sua agenda pública; dois meses depois, o banqueiro foi recebido por Lula no Palácio do Planalto, reunião que o presidente confirmou ter aceitado a pedido do ex-ministro Guido Mantega.

O anexo foi entregue à Procuradoria-Geral da República em junho, quando a segunda proposta de colaboração de Vorcaro acabou descartada. A PGR não deu prosseguimento ao relato por entender que não havia provas, já que os pagamentos teriam sido feitos em dinheiro vivo.

A defesa do banqueiro rebate e afirma dispor de mensagens de WhatsApp, registros de entrada e saída das pessoas que retiraram os valores e o mapeamento de locais e rotas usados pelos operadores nas entregas.

Há, porém, pontos que pesam contra a narrativa. Trata-se da palavra de um réu preso que buscava benefícios penais e que teve a proposta de delação rejeitada justamente por falta de lastro probatório.

Os produtores e diretores do documentário de Oliver Stone e Rob Wilson já haviam divulgado nota negando qualquer vínculo financeiro com o banqueiro ou com o Master e anunciando medidas judiciais contra o que classificaram como acusação falsa.

Padilha, por sua vez, negou ter intermediado a reunião de Vorcaro com Lula e afirmou que, à frente da articulação política, participava rotineiramente de encontros com representantes de diversos setores. O momento da divulgação, em plena reta final de campanha, também precisa ser considerado na leitura dos fatos.

Acusação não é prova, e a suposta propina em espécie ainda depende de demonstração. Mas a relação entre Vorcaro e o governo Lula já se sustenta sobre fatos que não dependem de delação.

O presidente abriu as portas do Planalto a um banqueiro hoje acusado de uma fraude bilionária, atendendo a um pedido de Guido Mantega. O então responsável pela articulação política do governo foi jantar na casa do mesmo banqueiro, longe da agenda oficial. E o Master buscava justamente credenciamento em fundos de pensão sob forte influência de indicações do Executivo.

Nada disso é crime por si só, mas revela uma proximidade que o PT preferiu omitir enquanto transformava o caso em arma eleitoral contra Flávio Bolsonaro.

Quem passou meses apontando o dedo para o filme do adversário não pode agora reduzir as acusações sobre o documentário de Lula a mera manobra de campanha.

O presidente, Paulo Okamotto, João Vaccari Neto, Jaques Wagner e Alexandre Padilha devem explicações públicas e detalhadas, e a PGR precisa reabrir a análise do material que a defesa diz possuir, com perícia nas mensagens, nos registros e nas rotas apontadas.

Lula disse que a investigação deve seguir "doa a quem doer". A frase só terá valor se também alcançar o Palácio do Planalto.


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