Virada inédita reconduz Lula ao Planalto, mas Foz do Iguaçu mantém fidelidade ao bolsonarismo
Editoria: Política
Lula conquista o quarto mandato após virada inédita, enquanto Flávio Bolsonaro vence em Foz do Iguaçu com 63,01% dos votos válidos.

Foto: divulgação
Pela primeira vez na história republicana, um candidato à Presidência perdeu o primeiro turno e venceu o segundo. Lula (PT) foi eleito com 51,76% dos válidos contra 48,24% de Flávio Bolsonaro (PL), conquistando neste domingo (25) um quarto mandato inédito. Em Foz do Iguaçu, porém, o mapa ficou azul: o senador fluminense venceu com folga na cidade, ainda que o petista tenha crescido mais entre um turno e outro.
O resultado nacional desfaz uma tendência que parecia consolidada há três semanas. O 2º turno começou com Flávio Bolsonaro favorito pelos números do 1º turno: 47,03% contra 45,16% de Lula, uma diferença de 1,87 ponto e 2,22 milhões de votos.
A reversão se tornou, segundo a imprensa econômica, a primeira virada entre o primeiro e o segundo turno numa disputa presidencial na história do país, e prolonga o ciclo do PT no poder federal desde a redemocratização. O vice Geraldo Alckmin (PSB) também foi reconduzido. Para efeito de comparação, a vantagem de agora é ligeiramente superior à de 2022, quando Lula derrotou Jair Bolsonaro por cerca de 1,8 ponto.
Na apuração local, o cenário se repete com contornos próprios. Com 100% das 626 seções apuradas, Flávio Bolsonaro recebeu 103.803 votos em Foz, o equivalente a 63,01% dos válidos, enquanto Lula somou 60.943 votos, ou 36,99%. A diferença local chegou a 42.860 votos.
O dado mais revelador, contudo, é o movimento entre os turnos: Lula saiu de 50.383 para 60.943 votos, acréscimo de 10.560 e alta de 5,53 pontos, enquanto Flávio ganhou 6.189 votos, ou 2,05 pontos. A participação também subiu: dos 209.038 eleitores aptos, 168.728 votaram, e a abstenção caiu de 21,06% para 19,28%.
No Paraná, a fotografia é semelhante. Flávio venceu no estado com 62,58% dos válidos, somando 4.291.444 votos, contra 2.566.504 do atual presidente, equivalentes a 37,42%. Ainda assim, Lula teve o maior crescimento entre os turnos no estado, com 511.907 votos a mais, contra 346.099 do adversário.
O petista venceu em 49 cidades paranaenses, com destaque para Rio Bonito do Iguaçu. Os percentuais estaduais praticamente reproduzem os de 2022, quando Jair Bolsonaro obteve 62,4% dos válidos no Paraná e Lula, 37,6%.
Há leituras que relativizam o triunfo. A vitória foi apertada e construída num ambiente de forte polarização: pesquisa Quaest divulgada três dias antes da votação mostrava Flávio com 45% das intenções de voto, contra 44% de Lula.
Críticos da campanha governista apontam que, após terminar o primeiro turno atrás, Lula intensificou a divulgação de medidas econômicas e sociais para reverter a desvantagem, o que a oposição tende a classificar como uso da máquina pública.
Do lado petista, a leitura é de correção de rota: a campanha passou dias discutindo os erros do primeiro turno e mudou o rumo da disputa. Em Foz, a oposição pode argumentar com razão que a cidade reafirmou seu perfil conservador, ainda que com margem menor do que os 66,18% dados a Jair Bolsonaro em 2022.
A eleição terminou, e a fronteira precisa olhar para frente. Foz do Iguaçu votou majoritariamente contra o presidente eleito, mas depende de Brasília em praticamente tudo o que move sua economia: Itaipu Binacional, Receita Federal, Polícia Federal, obras de infraestrutura e políticas de turismo internacional.
A responsabilidade agora recai sobre as lideranças locais de todos os campos: transformar a divisão das urnas em capacidade de articulação, e não em isolamento. Uma cidade que cresceu sendo ponte entre três países não pode se dar ao luxo de queimar pontes com o próprio governo federal.