Vereadores de Foz apostam em Lula e testam os limites da própria base eleitoral

Sete vereadores de Foz do Iguaçu declaram apoio a Lula para 2026 e fazem uma aposta política em uma cidade onde Bolsonaro obteve 66% dos votos em 2022.

Vereadores de Foz apostam em Lula e testam os limites da própria base eleitoral

Sete parlamentares suprapartidários da Câmara Municipal de Foz do Iguaçu declararam publicamente apoio à candidatura de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em agenda promovida na residência do diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Enio Verri. A cena reacende uma pergunta incômoda para quem vive de voto na fronteira: em uma cidade que rejeitou Lula por margem larga em 2022, esse gesto fortalece ou fragiliza a carreira política de quem o fez?

A aproximação entre Itaipu e a Câmara de Vereadores de Foz não é novidade institucional. Diretores-gerais de diferentes matizes ideológicos historicamente cultivam relação próxima com o legislativo municipal, dada a centralidade da usina binacional na economia, no emprego e na estrutura de obras da cidade-sede. O que muda agora é a natureza explicitamente eleitoral do encontro: não se trata de uma reunião técnica ou de cooperação institucional, mas de uma manifestação de apoio à disputa presidencial de 2026, sob o mote de campanha "O Brasil pronto pra mais", conceito criado pelo marqueteiro Raul Rabelo em articulação com o ministro da Secom, Sidônio Palmeira, e que também batiza a coligação de partidos que sustenta a chapa Lula-Alckmin.

Os sete vereadores que assumiram publicamente o apoio são Adnan El Sayed, do PSD, Anice Gazzaoui, do PP, Balbinot, do PSDB, Beni Rodrigues, do PP, Márcia Bachixte, do MDB, além das petistas Valentina e Yasmin Hachem, ambas pré-candidatas a deputada estadual. Dos sete, apenas as duas últimas têm vínculo partidário direto com o campo lulista; os demais integram legendas historicamente fisiológicas, sem tradição de alinhamento ideológico ao PT, o que sugere menos adesão programática e mais cálculo de proximidade com uma fonte relevante de recursos e articulação política.

O contexto eleitoral local, porém, não favorece esse tipo de exposição. Em Foz do Iguaçu, no segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro obteve 104.235 votos, equivalentes a 66,18% dos válidos, contra 53.259 votos de Lula, ou 33,82%, uma diferença expressiva e superior à média estadual, em que Bolsonaro venceu por 62,40% a 37,60%. Dois anos depois, em outubro de 2024, o eleitorado da cidade elegeu em primeiro turno, com 50,14% dos votos, o general Joaquim Silva e Luna, filiado ao PL, mesmo partido do senador Flávio Bolsonaro, hoje apontado como possível adversário de Lula em 2026. O padrão eleitoral de Foz do Iguaçu é, portanto, consistentemente mais próximo do campo bolsonarista do que do lulista.

É nesse cenário que a aposta dos sete parlamentares se torna arriscada. Vereadores que dependem de votação própria e concentrada para se manter em mandatos ou migrar para cargos majoritários caminham, ao declarar apoio a Lula, na contramão do próprio eleitorado que os sustenta localmente. O benefício potencial de acesso a emendas, convênios e estrutura de Itaipu pode não compensar o desgaste de imagem diante de uma base historicamente conservadora, sobretudo se a corrida presidencial de 2026 repetir a polarização de 2022.

Cabe registrar, em contraponto, que a leitura oposta também é defensável: para as vereadoras do PT com pretensão a cargos estaduais, a exposição pode ser vantajosa fora dos limites de Foz, em regiões do Paraná mais permeáveis ao discurso do governo federal, onde a proximidade com a articulação de Itaipu pode significar acesso a recursos de campanha e capilaridade partidária. Da mesma forma, não há, até o momento, elementos que caracterizem uso indevido de estrutura pública para fins eleitorais na agenda promovida por Enio Verri, algo que demandaria apuração específica caso surjam indícios de irregularidade.

Já o prefeito Joaquim Silva e Luna parece posicionado para sair fortalecido do episódio, independentemente do resultado da disputa presidencial. Sua base eleitoral, majoritariamente bolsonarista, não é a mesma que migra para o discurso pró-Lula, o que o mantém isento do desgaste assumido pelos vereadores. Sua trajetória technical, como ex-ministro da Defesa, ex-diretor-geral de Itaipu e ex-presidente da Petrobras, permite-lhe cultivar imagem de gestor acima da disputa partidária, capaz de dialogar com qualquer governo federal sem comprometer sua base local. Em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro em 2026, Silva e Luna teria acesso direto a recursos federais por afinidade partidária, reduzindo a relevância da ponte construída pelos vereadores pró-Lula. Em um cenário de reeleição de Lula, ainda assim tenderia a colher os benefícios de eventuais investimentos trazidos por Itaipu para o município, associando a entrega de obras e serviços à sua gestão, e não à articulação política dos parlamentares que a viabilizaram.

Autor: Márcio Queiroz Vítor – Jornalista há 21 anos; Gestor em Marketing e Eventos há 26 anos; MBA em Comunicação e Marketing; Coordenador Comercial do Guarda Volume; PhD sobre Foz do Iguaçu.

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