Rio sem segundo turno: anulação dos votos de Garotinho entrega o Palácio Guanabara a Douglas Ruas
Editoria: Política
Anulação dos votos de Anthony Garotinho muda o resultado das eleições no Rio de Janeiro e garante a vitória de Douglas Ruas (PL) no primeiro turno.

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Decisão da Justiça Eleitoral altera o cálculo dos votos válidos, garante maioria absoluta ao candidato do PL e encerra a disputa com Eduardo Paes ainda no primeiro turno.
Por Márcio Queiroz Vítor | Guarda Volume
O Rio de Janeiro conheceu seu próximo governador quatro dias depois do fechamento das urnas, e o desfecho não veio da contagem eletrônica, mas da Justiça Eleitoral.
Douglas Ruas (PL), presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), foi apontado como governador eleito em primeiro turno após decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre os votos dados a Anthony Garotinho (Republicanos), conforme noticiou O Globo nesta quinta-feira (8).
Com a exclusão desses votos da base de cálculo, cai o segundo turno que estava marcado para 25 de outubro contra o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD).
A decisão judicial que mudou o resultado
A reviravolta tem raízes antigas. Garotinho teve o registro de candidatura negado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) em setembro, em razão de condenação por improbidade administrativa ligada a contratos da Saúde durante o governo de Rosinha Garotinho (2003-2007), período em que ele chefiava a Secretaria de Estado de Governo.
O TRE-RJ tomou como marco o trânsito em julgado da condenação, ocorrido em 2025, entendimento que o manteria inelegível até 2033. Ainda assim, o ex-governador recorreu e seu nome seguiu na urna.
Na sexta-feira (2), véspera do pleito, o relator no TSE, ministro Floriano de Azevedo Marques, revogou uma liminar favorável a Garotinho e determinou que seus votos fossem registrados como anulados sub judice.
Há uma ironia no enredo: antes da votação, era a coligação de Paes quem cobrava pressa do TSE, temendo que o Rio fosse a um segundo turno para só depois descobrir que ele era desnecessário. As urnas inverteram a lógica, e a exclusão dos votos de Garotinho passou a beneficiar o adversário.
Os números que garantiram a vitória de Douglas Ruas
Os números explicam o desfecho. Com 100% das urnas apuradas, Ruas somou 4.271.199 votos (49,27%), Paes ficou com 3.706.984 (42,76%) e Garotinho com 274.411 (3,17%).
A totalização reunia 8.669.038 votos; sem os do candidato do Republicanos, a base cai para 8.394.627, e o percentual de Ruas sobe para cerca de 50,9%, acima da maioria absoluta exigida para vencer sem segundo turno.
Na segunda-feira (5), a defesa de Garotinho protocolou no TSE um termo de desistência do recurso, apresentado como livre e irretratável e fundamentado no artigo 998 do Código de Processo Civil.
Na terça-feira (6), a Procuradoria-Geral Eleitoral, pelo vice-procurador-geral eleitoral Alexandre Espinosa, opinou pela homologação e sustentou que, mesmo sem ela, os votos deveriam ser anulados em definitivo.
A etapa seguinte é a nova totalização e a proclamação formal do resultado pelo TRE-RJ.
Quem é Douglas Ruas, o novo governador do Rio
Aos 37 anos, Ruas chega ao Palácio Guanabara ainda no primeiro mandato como deputado estadual.
Natural de São Gonçalo, é filho do prefeito da cidade, Capitão Nelson (PL), e policial civil concursado.
Fez carreira na administração pública com passagens pela prefeitura comandada pelo pai e pelo governo Cláudio Castro (PL), no qual foi secretário das Cidades.
Eleito para a Alerj em 2022 com 175.977 votos, assumiu a presidência da Casa e entrou na disputa estadual com o apoio de Flávio Bolsonaro, enquanto Paes tinha o respaldo do presidente Lula.
Eduardo Paes questiona resultado e acusa manobra eleitoral
O resultado não é unânime. Paes classificou a desistência de Garotinho como manobra e acusou um arranjo para dar a vitória ao candidato do PL no tapetão.
O PSOL recorreu ao TSE na própria segunda-feira contra a desistência, sob o argumento de que o resultado de uma eleição não pode depender de uma decisão unilateral de candidatura.
Ruas, por sua vez, rebateu lembrando que a própria campanha de Paes havia pedido ao TSE que os votos de Garotinho fossem considerados nulos, o que, segundo ele, afasta qualquer divergência sobre o tema.
Do ponto de vista jurídico, a PGE deixou claro que a anulação decorre da inelegibilidade já reconhecida pelo TRE-RJ, e não apenas do gesto de desistência.
Fica sem voz, nesse debate, o eleitor de Garotinho: mais de 274 mil fluminenses que foram às urnas e tiveram os votos invalidados por uma candidatura que já chegou ao dia da eleição barrada.
Caso do Rio acende alerta para o Paraná
A eleição do Rio foi decidida dentro das regras, mas expõe uma fragilidade que a Justiça Eleitoral precisa enfrentar: registros de candidatura pendentes no dia da votação transformam o resultado em refém do calendário processual e dos movimentos de quem nem deveria estar na urna.
O episódio interessa diretamente ao leitor paranaense e de Foz do Iguaçu, porque o TSE também tem pendências de registro capazes de mexer no resultado do Paraná, como o questionamento à candidatura de Deltan Dallagnol, eleito ao Senado.
Segurança jurídica eleitoral se constrói antes do voto, não depois dele.
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