Retatrutida: Paraguai é o principal polo de distribuição da substância irregular no Brasil, alerta Anvisa

Anvisa alerta que a retatrutida não possui registro em nenhum país e aponta o Paraguai como principal origem do medicamento irregular que abastece o mercado clandestino brasileiro.

Retatrutida: Paraguai é o principal polo de distribuição da substância irregular no Brasil, alerta Anvisa

Sem registro em nenhum país, medicamento experimental chega ao território brasileiro majoritariamente pela fronteira paraguaia; apreensões de canetas emagrecedoras já superam R$ 11 milhões só em 2026 e ocupam o segundo lugar no ranking de contrabando em Foz do Iguaçu

O Paraguai se consolidou como o principal centro de fabricação, importação e distribuição de versões irregulares da retatrutida que abastecem o mercado clandestino brasileiro. É o que reforça o alerta emitido nesta sexta-feira (24) pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que reafirma que a substância experimental, estudada para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, não tem aprovação para uso ou comercialização em nenhum país do mundo — nem mesmo no território paraguaio, onde a agência sanitária local, a Dinavisa, também já classificou o produto como não registrado e de risco grave.

O aviso da Anvisa ocorre em meio ao aumento do interesse pela substância, impulsionado pelos resultados promissores obtidos em pesquisas clínicas. Apesar disso, o órgão reforça que qualquer produto comercializado atualmente como retatrutida é irregular e representa risco à saúde.

Paraguai concentra a produção e o contrabando

Levantamentos recentes mostram que as canetas emagrecedoras se tornaram um dos itens mais contrabandeados para o Brasil, superando até os cigarros e ficando atrás apenas dos smartphones entre as apreensões da Receita Federal na Alfândega de Foz do Iguaçu.

Boa parte desse fluxo tem origem no Paraguai. Laboratórios locais passaram a produzir versões da substância a partir de princípios ativos importados assim que o mercado formal de medicamentos como a tirzepatida começou a se expandir, e o mesmo movimento se repete agora com a retatrutida.

Nos três primeiros meses de 2026, o valor de canetas emagrecedoras irregulares apreendidas na fronteira já ultrapassou R$ 11 milhões, mais do que o total registrado durante todo o ano de 2025.

Fabricante ainda não pediu registro

Segundo a Anvisa, a Eli Lilly, empresa responsável pelo desenvolvimento da retatrutida, aguarda a conclusão das pesquisas para, só então, solicitar o registro do produto junto às autoridades sanitárias.

Até o momento, nenhum pedido de aprovação foi protocolado no Brasil ou em qualquer outro país.

Isso torna irregular qualquer produto atualmente comercializado sob o nome de retatrutida. Mesmo assim, versões supostas da substância já circulam em sites, redes sociais e até em apreensões registradas nas fronteiras brasileiras.

Sem registro e sem fiscalização sanitária, não há qualquer garantia de que esses produtos realmente contenham o princípio ativo anunciado, na dose correta, ou que tenham sido fabricados, transportados e armazenados de forma adequada.

O que significa dizer que o medicamento ainda está em estudo

A retatrutida não está no início das pesquisas. A molécula já foi testada em centenas de voluntários, apresentando resultados avançados e promissores tanto para perda de peso quanto para controle glicêmico em pacientes com diabetes tipo 2.

Mesmo assim, isso não significa que o medicamento esteja pronto para ser comercializado.

Antes de solicitar aprovação, a fabricante ainda precisa concluir todo o programa de desenvolvimento clínico para definir:

quais doses apresentam melhor relação entre benefícios e riscos;
quais efeitos adversos podem ocorrer;
possíveis complicações raras;
quem não deve utilizar o medicamento;
interações com outros medicamentos;
manutenção dos resultados no longo prazo.

Somente após essa etapa será possível solicitar o registro sanitário, quando as agências reguladoras analisarão a eficácia, a segurança, o processo de fabricação e o controle de qualidade.

Resultados chamaram a atenção da comunidade científica

O interesse pela retatrutida aumentou após estudos indicarem perda de peso comparável à observada em alguns pacientes submetidos à cirurgia bariátrica.

Uma pesquisa publicada em junho na revista científica The Lancet acompanhou 930 adultos com diabetes tipo 2 durante até 80 semanas.

Entre os participantes que receberam a dose mais elevada, a redução média de peso corporal chegou a 28,3%, enquanto mais de 65% deixaram de ser classificados como obesos pelo Índice de Massa Corporal (IMC).

O estudo também apontou melhora significativa no controle da glicemia e possíveis benefícios para pacientes com apneia obstrutiva do sono e osteoartrite no joelho.

Mesmo diante desses resultados, especialistas reforçam que ainda são necessários dados completos sobre segurança antes de qualquer autorização para comercialização.

Como a substância funciona

A retatrutida faz parte da mesma categoria das chamadas "canetas emagrecedoras", mas possui um diferencial importante: atua simultaneamente sobre três mecanismos hormonais.

Ela imita a ação dos hormônios GLP-1 e GIP, responsáveis pelo aumento da saciedade, controle da glicose e estímulo à produção de insulina, além de agir sobre o receptor de glucagon, aumentando o gasto energético do organismo.

Por isso, é considerada uma substância de tripla ação.

Enquanto a semaglutida (Ozempic e Wegovy) atua principalmente sobre o GLP-1 e a tirzepatida (Mounjaro) age sobre GLP-1 e GIP, a retatrutida combina os três mecanismos.

Ainda assim, a Anvisa ressalta que a aprovação desses medicamentos não se estende automaticamente à nova substância, que precisa cumprir todo o processo regulatório de forma independente.

Os riscos dos produtos clandestinos

Segundo a Anvisa, adquirir medicamentos experimentais vendidos de forma clandestina representa riscos muito maiores do que os efeitos colaterais conhecidos da própria substância.

Produtos irregulares não passam por qualquer avaliação sobre:

instalações de fabricação;
matérias-primas utilizadas;
processos produtivos;
transporte;
armazenamento.

Também não existe rastreabilidade dos lotes, impossibilitando investigações em caso de reações adversas graves.

Sem esse controle, o conteúdo pode apresentar concentrações incorretas, impurezas, microrganismos, outras substâncias ou até sequer conter a retatrutida.

Além disso, a ausência de bula impede que o consumidor tenha acesso a informações fundamentais sobre doses, contraindicações, interações medicamentosas e formas corretas de conservação.

Da produção ao transporte: o eixo do contrabando passa pelo Paraguai

Relatos de operações de fiscalização mostram que o Paraguai concentra praticamente toda a cadeia do produto irregular antes da entrada no Brasil.

Segundo especialistas em economia de fronteira, o contrabando de tirzepatida começou logo após a chegada do medicamento ao mercado formal, e o mesmo processo vem ocorrendo agora com a retatrutida.

A principal rota utilizada é a BR-277, no Paraná.

As apreensões já localizaram medicamentos escondidos em:

compartimentos ocultos de veículos;
fundos falsos;
motores;
escapamentos;
caminhões-cofre;
corpo de passageiros.

Em uma única operação foram apreendidas mais de 30 mil unidades. Em outra fiscalização, realizada em Santa Terezinha de Itaipu, agentes encontraram mais de duas mil unidades de medicamentos emagrecedores, incluindo cerca de uma centena vendida como retatrutida.

Embalagens apreendidas em Foz do Iguaçu indicam procedências variadas, como Alemanha e Paraguai, embora fiscais afirmem que o verdadeiro local de fabricação permaneça desconhecido.

Análises laboratoriais já identificaram alterações na molécula de produtos vendidos como retatrutida, impossibilitando qualquer garantia de autenticidade.

Sem previsão para chegar às farmácias

Como o desenvolvimento clínico ainda não foi concluído e nenhum pedido de registro foi apresentado às autoridades sanitárias, não existe qualquer previsão oficial para a chegada da retatrutida ao mercado.

Mesmo sem autorização em nenhum país — incluindo o próprio Paraguai — produtos anunciados como retatrutida já circulam amplamente no mercado paralelo sul-americano.

Em março, uma empresa paraguaia chegou a promover canetas supostamente contendo a substância durante um evento com influenciadores brasileiros, reforçando o papel do país como principal vitrine e origem declarada desse comércio irregular.

Diante desse cenário, a Anvisa reforça a recomendação para que a população não compre nem utilize medicamentos sem registro sanitário. Além dos riscos à saúde, a comercialização desses produtos pode configurar crime.

Márcio Queiroz Vítor
Jornalista há 21 anos; Gestor em Marketing e Eventos há 26 anos; MBA em Comunicação e Marketing; Coordenador Comercial do Guarda Volume; PhD sobre Foz do Iguaçu.

Mais notícias