OPINIÃO | Por que eles matam?

Com 1.568 feminicídios em 2025, o Brasil enfrenta uma escalada de violência contra mulheres. Entenda as causas e o que está por trás desse padrão.

OPINIÃO | Por que eles matam?

O Brasil voltou a bater um recorde que envergonha qualquer sociedade que se pretenda civilizada: foram 1.568 feminicídios registrados em 2025, o maior número da última década. Na prática, significa dizer que, todos os dias, ao menos quatro mulheres são assassinadas por razões de gênero no país. Não se trata de um fenômeno isolado, nem de episódios desconectados. Trata-se de um padrão.

O caso da estudante de medicina catarinense de 23 anos, morta a facadas no Paraguai, expõe mais uma vez a face brutal dessa realidade. Jovem, com trajetória promissora, teve a vida interrompida de forma violenta — como tantas outras brasileiras. O que choca não é apenas a crueldade do crime, mas a familiaridade do enredo.

Na maioria dos feminicídios, o agressor não é um desconhecido. É alguém próximo: companheiro, ex-companheiro, alguém que já ocupou espaço de confiança. E é justamente nesse ponto que a pergunta “por que eles matam?” encontra uma das respostas mais duras: porque não aceitam perder o controle.

A motivação, em grande parte dos casos, está ligada ao fim de relacionamentos, ao ciúme e à recusa masculina diante da autonomia feminina. Não é amor. É posse. É a incapacidade de lidar com a liberdade da mulher de decidir sobre a própria vida.

Mas reduzir o problema ao comportamento individual seria simplificar uma questão estrutural. Os dados mostram que a maioria das vítimas sequer teve acesso a mecanismos de proteção. Apenas uma pequena parcela possuía medida protetiva. Isso indica falhas graves: no acesso à denúncia, na proteção estatal e na prevenção.

Há ainda um recorte social evidente. A maior parte das vítimas são mulheres negras, o que evidencia que o feminicídio também dialoga com desigualdade, vulnerabilidade e exclusão. Não é apenas violência de gênero — é também reflexo de um país desigual.

Outro ponto que não pode ser ignorado é a naturalização da violência. Ainda hoje, agressões são tratadas como “briga de casal”, ameaças são minimizadas e comportamentos abusivos são relativizados. O feminicídio não começa com o assassinato. Ele é o desfecho de uma escalada de violência que, muitas vezes, foi ignorada.

Desde que o feminicídio foi tipificado como crime no Brasil, em 2015, mais de 13 mil mulheres foram mortas. A lei é um avanço importante, mas, sozinha, não tem sido suficiente para conter a tragédia. A sensação de impunidade, a lentidão do sistema e a fragilidade das políticas públicas ajudam a perpetuar esse cenário.

O assassinato da estudante catarinense não pode ser tratado como mais um caso. Ele precisa ser compreendido como parte de uma lógica que se repete diariamente. Muda o nome, muda a cidade, mas o motivo permanece.

A pergunta que abre este texto já não é mais um mistério.

A questão urgente é: até quando?

Márcio Queiroz Vítor
Jornalista há 21 anos
Gestor em Marketing e Eventos há 26 anos
MBA em Comunicação e Marketing
Coordenador comercial do Guarda Volume
PhD sobre Foz do Iguaçu

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