Marcelo Valente relembra Foz com permanência de 1,2 dia e projeta nova fase do turismo na cidade
Em entrevista ao Guarda Volume, Marcelo Valente relembra quando turistas ficavam apenas 1,2 dia em Foz e explica como a cidade dobrou a permanência e aumentou a recorrência nos últimos 25 anos.

Durante participação no Guarda Volume, nesta segunda-feira (23), o empresário e referência no setor turístico, Marcelo Valente, fez um resgate histórico contundente sobre a transformação de Foz do Iguaçu ao longo das últimas décadas.
Com 40 anos de trajetória — 38 deles vividos na cidade — Marcelo contextualizou uma realidade que hoje parece distante: houve um tempo em que o turista ficava, em média, apenas 1,2 dia em Foz.
“Era uma vez na vida, outra na morte”
Segundo Marcelo, nas décadas de 80 e início dos anos 90, a cidade vivia um cenário de baixíssima recorrência. O visitante vinha uma única vez — muitas vezes em lua de mel ou acompanhando os pais ainda criança — e só retornava 30 ou 40 anos depois.
A taxa média de permanência era de 1,2 dia. Na prática, isso significava que muitos turistas passavam apenas meio período na cidade.
“Chegava no avião da Varig às 10h, ia direto para as Cataratas, almoçava no hotel e às 16h já estava voltando para o aeroporto.”
Era esse o modelo.
O turismo funcionava quase como um “bate-volta aéreo”. Não havia estratégia estruturada de retenção, nem geração consistente de conteúdo que estimulasse o visitante a permanecer mais tempo.
Turismo não é corrida de 100 metros
Marcelo trouxe um conceito que se tornou central em sua visão de mercado:
“Turismo é maratona. Não é corrida de 100 metros.”
Ele relembra que muitos empreendedores entravam no setor acreditando que em dois ou três anos já estariam financeiramente resolvidos. A realidade mostrou o contrário: turismo exige construção de marca, posicionamento, dados e visão de longo prazo.
Crises econômicas nas décadas de 80 e 90 impactavam diretamente o fluxo de visitantes. O setor era extremamente vulnerável.
A estratégia, então, precisava mudar.
Dados, conteúdo e permanência maior
Hoje, segundo Marcelo, dentro da sua operação, a taxa média de permanência chega a 5,7 dias. Na média da cidade, o número já se aproxima de 3 dias — mais que o dobro do que era 25 anos atrás.
O diferencial? Informação qualificada e geração de conteúdo.
Ele destaca que, no passado, muitos agentes vendiam pacotes de dois dias simplesmente porque era o modelo mais fácil no sistema. Não havia esforço consultivo para ampliar a permanência.
Hoje, o cenário é outro:
O transporte é o item mais caro da viagem.
O visitante quer aproveitar melhor o deslocamento.
Há mais atrativos estruturados.
O marketing digital ampliou o alcance da região.
Recorrência em alta
Um dos dados mais relevantes apresentados por Marcelo é a projeção para os próximos cinco anos:
60% dos visitantes deverão estar retornando pela segunda vez.
Há 20 anos, esse índice não passava de 20%.
Esse crescimento é atribuído a um conjunto de fatores:
Investimentos robustos no Parque Nacional do Iguaçu pela Urbia.
Expansão e modernização do comércio em Ciudad del Este.
Estratégias agressivas de marketing digital das grandes lojas paraguaias.
Ampliação da oferta de experiências na tríplice fronteira.
Marcelo reconhece que o Paraguai tem papel relevante nesse novo fluxo de retorno. O turismo de compras passou a integrar o roteiro de forma estratégica.
Otimismo com realismo
Mesmo diante dos números positivos, Marcelo mantém uma postura cautelosa:
“Tem que ter o pé no chão. Aqui é Brasil.”
Para ele, o crescimento é consistente, mas exige continuidade de trabalho, integração entre os atores do setor e planejamento de longo prazo.
A construção do novo momento de Foz não é obra isolada. É resultado de décadas de esforço coletivo, envolvendo empresários, poder público, concessionárias e investidores.
A cidade que aprendeu a se vender
Ao final da conversa, ficou claro que a evolução da permanência média não aconteceu por acaso.
Ela é consequência de:
Profissionalização do trade turístico
Uso estratégico de dados
Produção constante de conteúdo
Melhoria na infraestrutura
Diversificação de experiências
Foz deixou de ser destino de meio-dia para se tornar destino de estadias prolongadas.
E, como reforça Marcelo Valente, a maratona continua.