Mais ataque do que projeto: debate da RPC expõe guerra pelo espólio bolsonarista e pelo legado de Ratinho Junior a cinco dias da eleição no Paraná

Por Márcio Queiroz Vítor

Editoria: Política

Debate da RPC reúne Sergio Moro, Sandro Alex e Requião Filho a cinco dias da eleição no Paraná, com ataques e embates sobre propostas.

debate RPC Paraná

Sergio Moro, Sandro Alex e Requião Filho se enfrentaram pela primeira vez juntos na TV; Lula, Bolsonaro, STF, Copel e escolas cívico-militares dominaram a noite

Na noite de terça-feira (29), os três principais candidatos ao Governo do Paraná finalmente dividiram o mesmo palco, no debate promovido pela RPC, afiliada da TV Globo. O encontro reuniu Sergio Moro (PL), Sandro Alex (PSD) e Requião Filho (PDT) em clima quente, que se estendeu da noite de terça até a madrugada de quarta-feira (30), com ataques superando as propostas.

A mediação ficou com a jornalista Helen Anacleto, e a transmissão começou depois das 22h15, logo após a novela Quem Ama Cuida.

O debate chegou cercado de expectativa porque a campanha foi marcada por encontros esvaziados. Em 9 de agosto, Moro desistiu do debate da Band Paraná poucas horas antes do programa, e a emissora manteve o confronto apenas com Requião Filho e Sandro Alex. No debate da TMC Paraná, Moro e Sandro Alex tinham confirmado presença, mas desistiram no dia do evento.

Por isso, o encontro de terça-feira foi o primeiro a reunir todos os postulantes ao Palácio Iguaçu com representação no Congresso Nacional. Também deve ter sido o último grande ato televisivo antes da votação de domingo (4).

Sucessão de Ratinho Junior no centro da disputa

O pano de fundo é a sucessão de Ratinho Junior (PSD), que indicou Sandro Alex como candidato da continuidade. Moro lidera as pesquisas mais recentes. Na Paraná Pesquisas divulgada na segunda-feira (28), o senador aparece com 46,2%, Requião Filho com 23,6% e Sandro Alex com 21,5%.

O formato adotado pela RPC favoreceu o confronto. Foram quatro blocos, os três primeiros com tema livre e o último reservado às considerações finais, com três minutos para cada candidato. Os participantes administraram livremente o próprio tempo de fala.

Moro abriu a noite acusando Sandro Alex de ser o responsável pelo baixo nível de uma campanha agressiva. Em seguida, tentou fazer da polarização nacional o eixo da disputa estadual. Colocou PT e PDT como amigos de Lula, PSD e MDB como aliados do presidente e a si mesmo ao lado de Flávio Bolsonaro.

Depois, propôs a Sandro Alex um acordo: ele não falaria em Lula se o adversário não citasse Ratinho Junior.

Sandro Alex não aceitou e partiu para o ataque. Disse que Moro foi preterido por Rafael Greca (MDB) na montagem da chapa e o acusou de trair Jair Bolsonaro e de ter votado pela indicação de Flávio Dino ao STF, o que o senador negou.

Alex citou as mensagens do celular de Moro publicadas pelo jornal O Globo em 2023. Moro lembrou que a votação no Senado foi secreta e afirmou ter votado contra Dino.

Na prática, os dois passaram a discutir quem seria o mais bolsonarista.

Requião Filho explora confronto entre adversários

Requião Filho explorou o desgaste entre os rivais. Assistindo ao embate com um sorriso, chamou a cena de “ringue divertidíssimo”. Quando Sandro Alex esqueceu parte de uma fala, ironizou que o adversário andava nervoso por estar mal nas pesquisas.

O pedetista também questionou a aproximação de Moro com o PL e citou Valdemar Costa Neto. Moro respondeu que Valdemar não terá participação em um eventual governo seu.

Moro contra-atacou citando Carlos Lupi, presidente do PDT, que deixou o Ministério da Previdência após a revelação de fraudes em descontos do INSS.

Acusações de favorecimento

As acusações de favorecimento ganharam força no segundo bloco.

Moro acusou Sandro Alex de ter priorizado uma obra de acesso ao resort Tayayá, ligado à família do ministro Dias Toffoli, em detrimento da Ponte de Guaratuba. Alex chamou a acusação de mentira.

O candidato do PSD resgatou acusações contra um tio de Requião Filho envolvendo o Porto de Paranaguá. Também criticou a aposentadoria especial recebida por Roberto Requião como ex-governador.

No bloco final de embates, o escândalo do Banco Master entrou em cena. Moro perguntou sobre a resolução de 2021 que autorizou o CredCesta no Paraná. Sandro Alex mandou o adversário perguntar ao colega de chapa Filipe Barros, candidato ao Senado e autor de projeto que ampliava o limite de cobertura do FGC.

Educação, segurança e combate à corrupção

Quando as propostas apareceram, os contrastes ficaram mais nítidos.

Na educação, Sandro Alex defendeu a expansão das escolas cívico-militares. Requião Filho argumentou que o modelo precisa de reformulações e criticou a valorização dos profissionais da rede pública. Requião negou que vá fechar escolas e defendeu mais ensino em tempo integral e educação técnica.

Na violência contra a mulher, Moro afirmou que 6.854 mulheres foram vítimas de estupro no Paraná no ano passado. Ele prometeu centros integrados de vigilância com inteligência artificial e reconhecimento facial, além de um presídio estadual de segurança máxima.

Requião propôs prevenção, adesão a iniciativas federais contra o feminicídio e um hospital voltado a mulheres e crianças.

No combate à corrupção, Moro prometeu uma agência anticorrupção e um código de ética para a alta administração. Requião questionou a necessidade da nova estrutura, lembrando que o Estado já conta com órgãos de controle.

Copel aproxima Moro e Requião

A Copel aproximou dois adversários.

Requião e Moro culparam o governo estadual pelas tarifas, mas Moro descartou reestatizar a empresa e prometeu um choque de gestão na Sanepar. Sandro Alex atribuiu parte dos aumentos ao governo federal.

Nas considerações finais, cada candidato reforçou sua própria trincheira.

Requião Filho chamou Sandro Alex de “instável” e ironizou os rivais pelas citações a Jair Bolsonaro. Apresentou sua candidatura como projeto de oposição e defendeu a retomada do controle da Copel e a redução de impostos para micro e pequenas empresas.

Moro disse que o debate foi marcado por agressões e acusações falsas. Prometeu uma redução gradual de tributos, afirmou que manterá obras do governo Ratinho Junior e reiterou apoio a Flávio Bolsonaro.

Sandro Alex esteve no estúdio acompanhado de Ratinho Junior. Assumiu a bandeira da continuidade e prometeu 400 creches, a Agência Estadual do Cuidado, reforço na segurança e continuidade dos programas habitacionais.

Mais ataques do que propostas

A leitura do debate, porém, depende de quem assiste. Parte da imprensa paranaense avaliou que houve mais ataque do que proposta. O próprio Requião Filho abriu sua participação pedindo foco em saúde, segurança e educação.

Blogs alinhados às campanhas já divulgam versões opostas sobre quem venceu, o que pede cautela diante de análises de parte interessada. Várias acusações feitas ao vivo foram negadas pelos alvos ou não vieram acompanhadas de provas.

E, para o eleitor do Oeste, chama atenção uma ausência: nas coberturas consultadas, não há registro de discussão específica sobre Foz do Iguaçu, a Tríplice Fronteira, o turismo internacional, a Itaipu Binacional ou a segurança na faixa de fronteira.

O debate da RPC confirmou que a eleição paranaense de 2026 virou, em boa medida, um plebiscito sobre duas heranças. Uma é a do bolsonarismo, disputada por Moro e Sandro Alex. A outra é a da gestão Ratinho Junior, que Sandro Alex reivindica e que até o líder das pesquisas passou a prometer preservar.

Requião Filho tenta ocupar sozinho o campo da oposição.

Na reta final, o eleitor iguaçuense merece mais do que troca de acusações. Merece saber o que cada candidato fará pela fronteira, pelo turismo e pela segurança do Oeste do Paraná — perguntas que ficaram sem resposta na principal vitrine televisiva da campanha.

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