Lobista amiga de Lulinha vai à TV, acusa Lula de mentir e acena com delação na reta final da eleição

Por Márcio Queiroz Vítor

Editoria: Política

Roberta Luchsinger acusa Lula de mentir, relata reuniões de Lulinha com ministros e sinaliza possível delação premiada em entrevista à CNN Brasil.

Roberta Luchsinger, empresária investigada no caso do INSS, fala sobre Lula e Lulinha em entrevista à CNN Brasil.

Foto: divulgação

Em entrevista à CNN Brasil, Roberta Luchsinger afirma que o filho do presidente participou de reuniões com ministros, relata articulações dentro do governo e sinaliza possível acordo de delação premiada.

Por Marcio Queiroz Vitor

A empresária e lobista Roberta Luchsinger rompeu o silêncio na noite deste sábado (17) e transformou o escândalo que a liga ao filho do presidente em munição contra o próprio Palácio do Planalto.

Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, ela afirmou que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, se reuniu "inúmeras vezes" com ministros do governo do pai, disse que ministros a procuravam para conseguir agenda com Lula e anunciou que pretende firmar acordo de delação premiada sem poupar nem o presidente, candidato à reeleição, nem o filho dele.

Quem é Roberta Luchsinger e qual sua ligação com o caso do INSS?

Roberta Luchsinger não é personagem nova na política nacional. Ex-candidata a deputada estadual pelo PT, ganhou notoriedade em 2017 ao anunciar apoio financeiro a Lula durante a Lava Jato, apresentando-se como herdeira de banqueiro suíço.

Em dezembro de 2025, foi alvo de busca e apreensão na Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, que apura as fraudes bilionárias nos descontos associativos do INSS.

Segundo a PF, ela recebeu R$ 1,5 milhão de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso desde setembro de 2025, e é apontada como elo entre ele e Lulinha.

O caso escalou ao longo de 2026: em agosto, o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, admitiu ter recebido dinheiro dela, que classificou como empréstimo pessoal já quitado.

Reportagem do Estadão mostrou que a lobista esteve mais de 40 vezes em órgãos federais, entre 2023 e 2025, sem registro nas agendas oficiais.

Lobista relata reuniões com ministros e participação de Lulinha

Na entrevista conduzida pelos jornalistas Débora Bergamasco e Iuri Pitta, Luchsinger citou nominalmente Camilo Santana e disse que Lulinha chegou a viajar para a casa dele no Ceará.

Admitiu ter participado, ao lado do filho do presidente e de ministros, de discussões sobre políticas públicas, sobretudo a venda de medicamentos à base de canabidiol.

Afirmou ainda que integrantes do primeiro escalão recorriam a ela para obter audiência com o presidente ou prioridade em projetos, e que não ganhava nada com isso.

"Se sou pilantra, eles também são": lobista rebate Lula

A fala mais dura foi reservada a Lula.

Em 1º de outubro, no Flow Podcast, o presidente disse não conhecê-la e a chamou de "pilantra muito grande" e de "Vorcaro feminino", em referência ao ex-controlador do Banco Master.

Em agosto, em sabatina na TV Globo, já havia afirmado nunca ter visto a empresária, apesar de fotos públicas dos dois juntos desde 2022.

Na CNN, Luchsinger devolveu: "Se sou pilantra, eles também são".

Disse que defendeu Lula quando ele foi preso, em 2018, e que hoje não acredita mais em sua inocência.

Sobre a delação, afirmou ter detalhes que não aparecem nas mensagens de WhatsApp e alegou que a máquina pública foi voltada contra ela.

Investigação exige cautela e comprovação das acusações

Há pontos que pesam contra a narrativa da lobista.

Ela é investigada, usa tornozeleira eletrônica, cuja retirada a Procuradoria-Geral da República rejeitou, e tem interesse direto em negociar benefícios penais, o que exige cautela com qualquer acusação desacompanhada de prova.

Em depoimento à PF, em maio, negou ter repassado valores do Careca do INSS a Lulinha e disse ter apresentado os dois apenas em contexto social.

A própria PGR registrou que a representação da PF não aponta nenhum negócio concluído entre o Careca e o poder público.

Lula sustenta que as suspeitas se apoiam em ilações de conversas telefônicas, diz duvidar que o filho tenha feito lobby com ministros e afirmou que Lulinha não terá proteção da PF e deve voltar ao Brasil para prestar esclarecimentos.

O advogado do filho do presidente já classificou os indícios como fofocas.

Não foi localizada, até a publicação, manifestação pública de Camilo Santana sobre a citação.

Delação na reta final da eleição amplia pressão sobre o Planalto

O episódio coloca o Planalto numa armadilha de credibilidade.

A estratégia de negar qualquer vínculo com Luchsinger já vinha sendo corroída por fotografias e pela admissão de Marcola; agora, a ameaça de delação na reta final da campanha presidencial transforma a investigação em fator eleitoral.

Ao mesmo tempo, palavra de investigada não é prova.

A posição do Guarda Volume é clara: as afirmações de Luchsinger precisam ser confrontadas com documentos, registros de agenda e dados bancários já em poder da Polícia Federal, e o governo tem o dever de abrir os registros de acesso aos palácios que o Gabinete de Segurança Institucional se recusou a fornecer.

Transparência, e não adjetivos trocados em entrevistas, é o que o eleitor merece antes de ir às urnas.


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