Itaipu pode inundar Foz? Engenheiros explicam riscos da barragem e desmentem vídeos alarmistas
Editoria: Tecnologia
Engenheiros explicam se Itaipu pode inundar Foz do Iguaçu, os riscos da barragem, a abertura do vertedouro e os vídeos alarmistas que circulam nas redes.

Foto: Guarda Volume
Em entrevista ao Guarda Volume Podcast, especialistas explicam por que o vertedouro é fundamental para a segurança da usina, como os rios Paraná e Iguaçu influenciam as cheias e o que há de errado nas simulações de destruição da cidade.
As fortes chuvas que atingiram Foz do Iguaçu nos últimos dias, provocando a elevação dos rios Paraná e Iguaçu, reacenderam uma preocupação entre moradores da região: a barragem de Itaipu poderia se romper e provocar uma inundação capaz de atingir toda a cidade?
O assunto ganhou ainda mais repercussão com a circulação de vídeos nas redes sociais que simulam ondas gigantescas avançando sobre bairros, ruas e edifícios de Foz do Iguaçu.
Para esclarecer essas dúvidas, o Guarda Volume Podcast recebeu os engenheiros Paulo Zanelli Júnior e Étore Funchal de Faria, que abordaram o funcionamento da hidrelétrica, os sistemas de segurança da barragem, a operação do vertedouro e os fenômenos naturais responsáveis pela elevação dos rios.
Durante a entrevista, os especialistas explicaram que a segurança de uma barragem depende de uma combinação de fatores, desde os estudos realizados antes da construção até o monitoramento permanente da estrutura.
Por que os rios Paraná e Iguaçu estão subindo?
Uma das principais explicações apresentadas durante o programa envolve o encontro dos rios Paraná e Iguaçu, localizado na região da Tríplice Fronteira.
Em condições normais, segundo os números apresentados na entrevista, o rio Paraná registra uma vazão de aproximadamente 10 mil a 11 mil metros cúbicos por segundo, enquanto o Iguaçu contribui com cerca de 1.500 metros cúbicos por segundo.
Entretanto, durante períodos de chuvas intensas, essa relação pode mudar drasticamente.
Na data mencionada pelos entrevistados, o rio Iguaçu apresentava vazão próxima de 16 mil metros cúbicos por segundo, enquanto o Paraná chegava a aproximadamente 20 mil metros cúbicos por segundo.
Isso significa que a contribuição do Iguaçu, normalmente muito menor, passou a se aproximar do volume transportado pelo Paraná.
Como os dois rios se encontram praticamente de maneira perpendicular, o aumento expressivo da vazão do Iguaçu provoca um efeito de represamento hidráulico, dificultando temporariamente o escoamento das águas do Paraná e contribuindo para a elevação do seu nível a montante da confluência.
Os engenheiros explicaram que esse comportamento resulta da combinação das vazões naturais dos rios com a água liberada pela operação da usina.
Abrir as comportas de Itaipu aumenta o nível do rio?
Outra dúvida recorrente envolve a abertura do vertedouro da hidrelétrica.
Quando Itaipu libera água pelas comportas, parte da população associa imediatamente a operação a um possível risco para a barragem.
Os especialistas esclareceram, entretanto, que o vertedouro foi construído justamente para permitir a passagem controlada do excesso de água do reservatório.
O vertedouro é uma das principais estruturas de segurança da barragem.
A água que segue para o rio Paraná pode ter duas origens: aquela que passa pelas unidades geradoras de energia elétrica e aquela que é liberada pelo vertedouro.
Quanto maior o volume total descarregado, maior pode ser sua contribuição para a elevação do nível do rio a jusante, dependendo também das condições hidrológicas.
Isso não significa, porém, que o vertimento represente uma falha estrutural.
Pelo contrário, trata-se de uma operação prevista no projeto da hidrelétrica.
Os entrevistados também abordaram situações em que a população observa água passando sobre comportas fechadas.
Uma das explicações apresentadas envolve oscilações na superfície do reservatório provocadas pela ação de ventos fortes, fenômeno conhecido tecnicamente como seiche.
Essas oscilações podem provocar elevações temporárias do nível da água em determinados pontos do reservatório.
E se a barragem de Itaipu se rompesse?
O momento de maior atenção da entrevista ocorreu quando o Guarda Volume levantou uma pergunta que circula frequentemente entre os moradores: o que aconteceria com Foz do Iguaçu em uma eventual ruptura da barragem?
Os especialistas explicaram que a estrutura de Itaipu possui aproximadamente oito quilômetros de extensão e que uma ruptura hipotética não deve ser confundida com a representação de toda a barragem desaparecendo instantaneamente.
Em situações reais de rompimento de barragens, podem ocorrer aberturas localizadas na estrutura, cuja evolução e consequências dependem de diferentes fatores técnicos.
Os engenheiros ressaltaram que não identificam, nas condições discutidas durante a entrevista, um ponto de fragilidade conhecido que permita apontar um local de possível ruptura de Itaipu.
Também enfatizaram que a prioridade da engenharia está na prevenção, no acompanhamento da estrutura e na identificação antecipada de qualquer comportamento anormal.
Isso envolve estudos geológicos, cálculos estruturais, controle dos materiais empregados na construção e monitoramento contínuo.
É importante destacar que a entrevista não apresentou uma simulação hidrodinâmica de ruptura nem um mapa oficial de inundação. Portanto, as explicações não permitem afirmar que um acidente seria impossível ou determinar quais áreas seriam atingidas em um cenário hipotético.
Vídeos mostram Foz sendo engolida por ondas gigantes
A circulação de imagens produzidas digitalmente também foi abordada durante a conversa.
Nas redes sociais, algumas simulações mostram enormes volumes de água avançando sobre Foz do Iguaçu, em cenas semelhantes às de um tsunami.
Os entrevistados questionaram a precisão técnica desse tipo de material.
Segundo os especialistas, muitas dessas representações apresentam erros graves de simulação e não levam em consideração adequadamente as características físicas da barragem, a topografia e o comportamento da água.
O uso de inteligência artificial para produzir imagens realistas também pode contribuir para a disseminação de conteúdos alarmistas.
Embora esses vídeos possam impressionar visualmente, não devem ser interpretados como previsões científicas sobre o comportamento de uma eventual onda de inundação.
Para avaliar consequências reais de um cenário hipotético, seriam necessários estudos específicos, com modelos hidrodinâmicos, dados topográficos e parâmetros estruturais.
Segurança começa antes da construção
Durante o podcast, os engenheiros destacaram que a segurança de uma hidrelétrica começa muito antes da instalação das primeiras estruturas de concreto.
O processo envolve estudos sobre o comportamento do rio, características geológicas, transporte de sedimentos, durabilidade dos materiais e condições de operação ao longo de décadas.
Uma das comparações apresentadas durante a entrevista envolveu os rios Negro e Solimões, na Amazônia.
Enquanto o Solimões transporta grande quantidade de sedimentos, o Negro apresenta características bastante diferentes.
Esse contraste ajuda a compreender por que a composição e o comportamento de cada curso d'água precisa ser considerada no planejamento de uma barragem.
O acúmulo de sedimentos, por exemplo, pode interferir na capacidade de armazenamento e na vida útil de reservatórios.
No caso de Itaipu, os entrevistados reforçaram a importância do projeto de engenharia, da qualidade da construção e dos procedimentos permanentes de inspeção e monitoramento.
Cheias podem acontecer mesmo sem barragens
Outro ponto destacado pelos especialistas é que enchentes não são fenômenos exclusivos de regiões onde existem hidrelétricas.
Chuvas intensas em grandes bacias hidrográficas podem elevar rapidamente o volume dos rios, independentemente da existência de uma barragem.
No caso de Foz do Iguaçu, a situação é especialmente complexa porque a cidade está localizada no encontro de dois grandes sistemas fluviais.
Quando o Iguaçu apresenta vazões excepcionalmente elevadas, a influência sobre o escoamento do Paraná pode intensificar os efeitos das cheias na região.
Por isso, os engenheiros ressaltaram a necessidade de compreender o comportamento natural dos rios antes de atribuir a elevação do nível da água exclusivamente à operação de Itaipu.
Informação técnica para combater o medo
A entrevista realizada pelo Guarda Volume Podcast procurou responder a dúvidas que ganharam força em meio às chuvas e à circulação de conteúdos alarmistas.
As explicações dos engenheiros ajudam a diferenciar três situações que frequentemente são confundidas: a elevação natural dos rios, a operação do vertedouro e uma hipotética ruptura da barragem.
Enquanto as cheias são fenômenos hidrológicos que exigem acompanhamento das autoridades, a abertura do vertedouro faz parte dos mecanismos normais de operação e segurança da usina.
Já uma eventual ruptura envolve um cenário completamente diferente, que exige avaliação técnica específica.
A principal mensagem da conversa é que informações sobre a segurança de Itaipu devem ser fundamentadas em dados de engenharia, monitoramento e estudos oficiais, e não em vídeos alarmistas que circulam pelas redes sociais.
O Guarda Volume Podcast segue acompanhando os acontecimentos relacionados à hidrelétrica e aos níveis dos rios que cortam Foz do Iguaçu.