Eleição rolo compressor: Gleisi, Manuela, Tebet e Marina ficam pelo caminho e centro-esquerda perde o Senado nos grandes colégios do Sul e Sudeste
Editoria: Política
Eleições 2026 deixam Gleisi, Manuela, Tebet e Marina fora do Senado e reforçam avanço da direita nos grandes colégios do Sul e Sudeste.

O primeiro turno de 4 de outubro de 2026 deixou uma fotografia nítida e incômoda para o campo progressista brasileiro. Enquanto a disputa presidencial seguiu aberta, com Lula indo ao segundo turno atrás de Flávio Bolsonaro, as urnas para o Senado varreram do mapa, em sequência, alguns dos rostos mais conhecidos da esquerda e da centro-esquerda nacional.
No Paraná, Gleisi Hoffmann terminou em quarto lugar. No Rio Grande do Sul, Manuela d'Ávila, que liderou pesquisas por meses, ficou em terceiro. Em São Paulo, duas ex-ministras e ex-presidenciáveis, Simone Tebet e Marina Silva, ocuparam a terceira e a quarta posições, atrás de uma chapa unificada da direita.
O resultado não surge do nada. Desde 2018, o Senado tornou-se o principal campo de batalha da direita bolsonarista, que passou a tratar a Casa como trincheira estratégica, sobretudo pela prerrogativa de julgar ministros do Supremo Tribunal Federal.
Em 2026, com duas cadeiras em disputa por estado, cada eleitor teve dois votos, o que favoreceu chapas coordenadas e puniu a fragmentação. A esquerda, por sua vez, apostou em nomes de peso nacional e em ex-ministros do governo Lula, alguns deles transplantados de seus redutos de origem, como no caso de Tebet, que trocou Mato Grosso do Sul por São Paulo.
Para o Paraná e para a região de fronteira, o recado tem peso adicional: o estado elegeu Sergio Moro governador no primeiro turno e entregou as duas vagas do Senado à direita, consolidando um alinhamento conservador que já vinha se desenhando desde 2018.
Paraná: Gleisi fica em quarto lugar
No Paraná, a apuração mostrou Filipe Barros (PL) com 27,31% dos votos válidos, Deltan Dallagnol (Novo) com 25,19%, Alexandre Curi (Republicanos) com 16,78% e Gleisi Hoffmann com 13,33%, segundo dados divulgados pela Gazeta do Povo.
A ex-presidente nacional do PT, que deixou a Secretaria de Relações Institucionais em abril para concorrer, buscava voltar à Casa que ocupou entre 2011 e 2019.
Foi sua primeira derrota desde 2014, quando disputou o governo do estado; antes, já havia perdido o Senado em 2006 e a Prefeitura de Curitiba em 2008.
A eleição de Dallagnol ainda carrega uma pendência: o registro de sua candidatura, deferido pelo TRE-PR, foi questionado no Tribunal Superior Eleitoral.
Manuela fica fora no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, a derrota de Manuela d'Ávila (PSOL) é a que mais contraria as pesquisas. Em agosto, a Paraná Pesquisas a colocava na liderança isolada, com 33,6%; em setembro, com 32,2%, ainda numericamente à frente.
O sinal de alerta estava na rejeição, a mais alta entre os candidatos, na casa dos 41% a 42%, segundo a Quaest. Na reta final, a Real Time Big Data já mostrava Van Hattem, Sanderson e Manuela embolados.
Ao final, Ubiratan Sanderson (PL) e Marcel van Hattem (Novo) ficaram com as duas cadeiras. Paulo Pimenta, do PT, que dividiu o voto progressista no estado, também ficou de fora.
Tebet e Marina perdem espaço em São Paulo
Em São Paulo, a chapa alinhada ao governador Tarcísio de Freitas venceu com folga: Guilherme Derrite (PP) somou 30,59% e André do Prado (PL), 29,28%.
Simone Tebet (PSB), ex-ministra do Planejamento, ficou com 19,23%, e Marina Silva (Rede), ex-ministra do Meio Ambiente, com 18,12%.
Somadas, as duas superaram cada um dos eleitos, mas a divisão do campo governista em duas candidaturas competitivas foi fatal num sistema em que vencem os dois mais votados.
Tebet, que deixou o MDB após quase três décadas e transferiu seu domicílio eleitoral, liderou os gastos da disputa, com mais de R$ 6 milhões, segundo dados do TSE citados pelo portal O Jacaré. Na véspera, o Datafolha ainda apontava empate técnico entre os quatro.
Derrotas se espalham pelo país
A lista se estende. Fernando Haddad perdeu a disputa pelo governo paulista, Benedita da Silva ficou fora no Rio de Janeiro, Randolfe Rodrigues não renovou o mandato no Amapá, Jorge Viana terminou em quarto no Acre e Soraya Thronicke, do PSB, ficou em quarto em Mato Grosso do Sul.
José Dirceu, que voltava às urnas depois de duas décadas, não se elegeu deputado federal por São Paulo.
Pelo levantamento do Intercept, a esquerda conquistou apenas seis cadeiras, todas do PT e cinco delas no Nordeste, com Marília Campos em Minas Gerais como exceção fora da região. A centro-esquerda somou outras cinco, por PSB, Rede e PDT.
Resultado também permite outras leituras
Há, porém, leituras que relativizam o quadro. A primeira é que o desastre não foi uniforme: o PT segue hegemônico no Nordeste, reelegeu Elmano de Freitas no Ceará contra Ciro Gomes e levou Rui Costa e Jaques Wagner ao Senado pela Bahia.
A segunda é que várias derrotas ocorreram por margens apertadas em disputas fragmentadas, o que aponta mais para erro de coordenação do que para rejeição absoluta das candidaturas.
A terceira é que a derrota de figuras tradicionais atingiu também o centro e a direita: Aécio Neves, Renan Calheiros, Ciro Nogueira e Esperidião Amin ficaram fora, o que sugere uma onda de renovação, e não apenas um movimento ideológico.
Ficam ausentes desta análise as manifestações dos próprios candidatos derrotados sobre os resultados, bem como o detalhamento dos votos por município, inclusive em Foz do Iguaçu, que ainda depende da consolidação dos dados do TSE.
O recado das urnas
O que o 4 de outubro escancara é uma esquerda que ainda sabe mobilizar seu núcleo fiel, mas que perdeu a capacidade de converter nomes nacionais em votos majoritários fora de seus redutos.
Apostar em ex-ministras de prestígio, sem coordenar candidaturas e sem enfrentar a rejeição acumulada, mostrou-se uma estratégia de alto custo.
Com um Senado mais conservador já desenhado para 2027, o segundo turno de 25 de outubro deixa de ser apenas uma disputa pela Presidência: será a definição sobre se o próximo governo, qualquer que seja, terá ou não uma Casa disposta a governar com ele.
Para o Paraná e para a fronteira, a mensagem das urnas é inequívoca: o estado consolidou-se como território da direita, e qualquer projeto progressista na região precisará se reinventar a partir dessa realidade.