Do outro lado da Ponte da Amizade, quase nove em cada dez eleitores brasileiros escolheram Flávio Bolsonaro

Por Márcio Queiroz Vítor

Editoria: Política

Flávio Bolsonaro conquistou 89,45% dos votos válidos em Ciudad del Este, no Paraguai, no primeiro turno das eleições de 2026. Confira os resultados.

Ponte Internacional da Amizade entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, onde brasileiros votaram nas eleições de 2026.

Foto: Divulgação

Em Ciudad del Este, candidato do PL recebeu 89,45% dos votos válidos no primeiro turno; resultado revela o perfil eleitoral da comunidade brasileira que vive na fronteira com Foz do Iguaçu.

Por Márcio Queiroz Vítor

Ciudad del Este acordou na segunda-feira (5) com um retrato eleitoral sem meio-termo. No Consulado-Geral do Brasil instalado na cidade paraguaia, a poucos minutos de Foz do Iguaçu, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 2.239 votos no primeiro turno da eleição presidencial de 2026, o equivalente a 89,45% dos votos válidos.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou com 202 votos, ou 8,07%. A informação foi divulgada pela imprensa paraguaia a partir dos dados oficiais da Justiça Eleitoral brasileira.

Uma fronteira com dinâmica política própria

A fronteira entre Brasil e Paraguai sempre teve uma política própria, moldada pelo comércio, pela migração e pela convivência diária entre dois países que dividem a mesma paisagem do Rio Paraná.

Na Tríplice Fronteira, nacionalidade, endereço, trabalho e estudo se misturam, e muitos brasileiros que vivem em Ciudad del Este, Presidente Franco ou Hernandarias mantêm laços diretos com Foz do Iguaçu, onde fazem compras, recebem atendimento e visitam a família.

Pela legislação brasileira, quem tem domicílio eleitoral no exterior vota apenas para presidente e vice-presidente, e o faz em seções instaladas em embaixadas e consulados.

Flávio Bolsonaro ultrapassa 89% dos votos em Ciudad del Este

Para 2026, o Consulado de Ciudad del Este tinha 5.102 eleitores aptos, a maior parte residente nos departamentos de Alto Paraná, Canindeyú, Itapúa e Caaguazú.

Atrás dos dois líderes, os demais candidatos tiveram desempenho residual na votação:

  • Renan Santos (Missão): 0,96%;
  • Augusto Cury (Avante): 0,84%;
  • Ronaldo Caiado (PSD): 0,40%;
  • Romeu Zema (Novo): 0,12%.

O padrão se repetiu no restante do Paraguai. Somando as seis sedes eleitorais brasileiras no país vizinho, Flávio alcançou 3.816 votos, ou 84,29% dos válidos, contra 544 de Lula, que ficou com 12,02%, segundo a reportagem paraguaia.

Levantamento publicado pela Tribuna de Jundiaí, com base nos números do exterior, aponta valores muito próximos, de 3.848 votos para Flávio e 546 para Lula.

No resultado nacional, Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos e Lula com 45,16%. Os dois voltam a se enfrentar no segundo turno, marcado para 25 de outubro, quando os brasileiros no exterior também retornam às urnas.

Brasileiros que vivem entre dois países

Por trás dos números existe uma comunidade com dinâmica particular.

Estudos acadêmicos sobre a região descrevem há anos o fluxo de jovens brasileiros que atravessam a fronteira para cursar faculdades privadas paraguaias, sobretudo Medicina, e Presidente Franco aparece como um dos destinos mais procurados.

Muitos vivem uma rotina transfronteiriça, morando no Paraguai e mantendo no Brasil vínculos, direitos e obrigações eleitorais.

O consulado também recebe brasileiros que foram ao país vizinho por trabalho ou por motivos familiares. Em pleitos anteriores, houve registro de eleitores que se deslocaram de localidades mais distantes do Alto Paraná para votar na sede diplomática.

Resultado no Paraguai contrasta com votação brasileira no exterior

O retrato de Ciudad del Este, porém, não traduz o comportamento do eleitor brasileiro fora do país como um todo.

Dados da votação no exterior mostram que Lula liderou em 64 países no primeiro turno, enquanto Flávio ficou à frente em 36, e que o candidato do PL somou 43,49% dos votos válidos no conjunto do exterior. A Europa, por exemplo, deu vantagem ao petista.

Também é preciso olhar para a abstenção. O comparecimento de brasileiros no exterior costuma ser baixo, e a votação no exterior registrou abstenção de 62,69%, o que significa que o resultado de cada consulado reflete apenas uma parcela dos eleitores inscritos.

Em Ciudad del Este, pouco menos da metade dos 5.102 aptos registrou voto válido.

Além disso, o perfil de quem vota na fronteira paraguaia, com forte presença de produtores rurais, comerciantes e estudantes do interior do Sul e do Centro-Oeste, ajuda a explicar a preferência, mas não há pesquisa específica que permita afirmar com precisão quais grupos pesaram mais no resultado.

O que o resultado representa para Foz do Iguaçu

Para Foz do Iguaçu, o dado vai além da disputa partidária.

Ele confirma que existe, do outro lado da ponte, uma comunidade brasileira numerosa, organizada e politicamente ativa, que vive a fronteira como território único e que costuma ficar invisível nas estatísticas oficiais das duas cidades.

Entender quem são esses brasileiros, por que escolheram o Paraguai e como se relacionam com Foz é tarefa que interessa à gestão pública, ao comércio e à imprensa regional muito além do calendário eleitoral.

O segundo turno, no dia 25, será a próxima oportunidade de medir esse peso.


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