Décimos que valem um mandato: Foz e o Paraná decidiram seus Executivos pela fresta mais estreita da maioria absoluta

Por Márcio Queiroz Vítor

Editoria: Política

Silva e Luna venceu Foz com 50,14% em 2024, e Sergio Moro conquistou o Paraná com 50,10% em 2026. Décimos que decidiram dois mandatos.

Silva e Luna e Sergio Moro

Foto: Divulgação

Em duas das disputas majoritárias mais acompanhadas do Paraná nos últimos dois anos, a vitória em primeiro turno não veio de uma onda, mas de uma linha. O general Joaquim Silva e Luna, em Foz do Iguaçu, em 2024, e o ex-juiz Sergio Moro, no Governo do Estado, no último domingo (4), ambos pelo Partido Liberal (PL), cruzaram a barreira dos 50% dos votos válidos por margens que cabem em décimos de ponto percentual.

Silva e Luna terminou com 50,14%; Moro, com 50,10%. Em ambos os casos, bastaria um deslocamento mínimo de eleitores para que a decisão fosse empurrada ao segundo turno.

A regra que transformou esses décimos em mandatos está na Constituição de 1988. Para governador, presidente e prefeito de municípios com mais de 200 mil eleitores, só vence no primeiro turno quem obtém a maioria absoluta dos votos válidos, ou seja, mais da metade dos votos dados a candidatos, excluídos brancos e nulos.

Não importa a distância para o segundo colocado: o que decide é a soma de todos os adversários. Foz do Iguaçu, com pouco mais de 200 mil eleitores aptos, está nesse grupo, e o Paraná, com cerca de 8,6 milhões, naturalmente também. Na prática, o sistema obriga o líder a vencer não apenas o principal rival, mas o conjunto inteiro da oposição somada.

Em Foz, cerca de 200 votos fizeram a diferença

Em Foz do Iguaçu, a trajetória de Silva e Luna foi de virada. Em julho de 2024, pesquisa do instituto Radar Inteligência apontava o ex-prefeito Paulo Mac Donald (PP) com 44,6% das intenções de voto, contra 17% do general.

Nas urnas, em outubro, o quadro se inverteu. Com 100% das seções apuradas, Silva e Luna obteve 50,14% dos votos válidos. Mac Donald ficou com 32,58%, Airton José (PSB) com 11,03% e Samis da Silva (PSDB) com 4,68%, completando o campo de sete candidatos.

Tomando como base os 73.522 votos atribuídos ao prefeito eleito e o percentual oficial de 50,14%, o total de votos válidos na cidade fica na casa de 146,6 mil, e a soma dos seis adversários, em torno de 73,1 mil.

A vantagem do general sobre toda a oposição reunida, portanto, foi de aproximadamente 410 votos, o que significa ter ficado pouco mais de 200 votos acima da metade exata.

Ex-ministro da Defesa, ex-diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional e ex-presidente da Petrobras, Silva e Luna assumiu a Prefeitura de Foz do Iguaçu em 1º de janeiro de 2025.

Moro cruza a linha com 50,10%

No plano estadual, a margem foi ainda mais apertada em termos relativos. Segundo a totalização final do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Sergio Moro recebeu 3.127.911 votos, o equivalente a 50,10% dos válidos, disputando pela coligação formada por Podemos, PL e Novo, com Edson Vasconcelos (PL) como vice.

Os demais candidatos somaram 3.115.888 votos, o que deixa a diferença entre Moro e o conjunto dos adversários em 12.023 votos, num universo de mais de 6,2 milhões de votos válidos.

Com a apuração quase concluída, Sandro Alex (PSD), candidato do grupo do governador Ratinho Junior, aparecia em segundo lugar, com 25,35%, seguido por Requião Filho (PDT), com 23,48%.

Moro foi o mais votado em 287 municípios, incluindo Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel, Ponta Grossa e a própria Foz do Iguaçu.

Uma noite decidida pela matemática

A noite de apuração no Paraná foi um exercício de tensão aritmética. O candidato do PL oscilou o tempo todo em torno da linha dos 50%.

O pico veio no início da noite, quando chegou a 50,48%, com cerca de dois terços das urnas apuradas. A partir dali, o índice recuou de forma contínua até o fechamento, e a vitória só foi confirmada pelo TSE às 22h43 de domingo.

Curiosamente, a última pesquisa Paraná Pesquisas antes do pleito, divulgada em 28 de setembro, havia estimado Moro com 50,1% dos votos válidos, um dos acertos mais precisos da temporada.

Quantos votos separaram o primeiro do segundo turno?

A matemática dessas margens merece ser lida com precisão. No caso de Moro, como a diferença para os adversários somados foi de 12.023 votos, bastaria que cerca de 6 mil eleitores dele tivessem migrado para qualquer outro candidato para que a disputa fosse ao segundo turno.

Já se o cenário fosse de eleitores que anularam ou votaram em branco passando a votar na oposição, seria necessário um volume equivalente à diferença inteira, cerca de 12 mil votos.

Em Foz, a mesma lógica reduz o limite a algumas centenas de eleitores: pouco mais de 200 votos trocados de lado teriam levado a cidade a um segundo turno em 2024.

Vitória incontestável, eleitorado dividido

Há, contudo, outra leitura possível desses números. Maioria absoluta é maioria absoluta, e a legislação não estabelece graus de legitimidade conforme a folga.

Moro e Silva e Luna venceram dentro das regras, com votos reais, e a distância para os segundos colocados — de quase 25 pontos no Estado e de mais de 17 pontos em Foz — indica que, em um eventual segundo turno, ambos entrariam como favoritos claros.

Ao mesmo tempo, a fotografia revela outro dado: praticamente metade dos eleitores que escolheram um candidato preferiu outro nome. Esse eleitorado não desaparece com a proclamação do resultado.

Também é preciso considerar que a regra dos votos válidos exclui brancos e nulos, que no Paraná somaram centenas de milhares de votos, e que a conta contrafactual, por definição, ignora o comportamento estratégico que o próprio eleitor teria adotado diante de outro cenário.

Décimos que exigem diálogo

O Guarda Volume entende que as duas vitórias são incontestáveis, mas carregam um recado que nenhum dos eleitos deveria ignorar: mandatos conquistados pela fresta mais estreita da maioria absoluta exigem governos de diálogo, não de hegemonia.

Para Foz do Iguaçu, o novo arranjo abre uma oportunidade concreta. Pela primeira vez em muitos anos, a Prefeitura de Foz do Iguaçu e o Palácio Iguaçu estarão sob o comando de gestores do mesmo partido a partir de 2027, o que pode destravar investimentos, convênios e prioridades da Tríplice Fronteira junto ao Estado.

Aproveitar esse alinhamento, sem perder de vista a metade do eleitorado que votou diferente, será o verdadeiro teste dos décimos que decidiram 2024 e 2026.

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