Da urna à articulação: ao vivo no Guarda Volume, Matheus Vermelho convida Paulo Mac Donald para a base de Moro e Foz ensaia bancada unida

Por Márcio Queiroz Vítor

Editoria: Política

Matheus Vermelho e Paulo Mac Donald

Nem bem as urnas esfriaram e Foz do Iguaçu já se movimenta para transformar votos em poder de articulação. Durante a transmissão ao vivo da apuração feita pelo Guarda Volume, na noite de domingo, o deputado estadual reeleito Matheus Vermelho (PL) convidou publicamente o ex-prefeito Paulo Mac Donald (PP), eleito para a Assembleia Legislativa, a integrar a base de sustentação do governador eleito Sergio Moro.

O gesto, feito diante do público da apuração, sinaliza a intenção de evitar que a maior representação parlamentar já conquistada pela cidade se divida logo no primeiro dia de mandato.

Novo cenário político no Paraná

O movimento ocorre num contexto de reconfiguração profunda da política paranaense. Moro, ex-juiz da Lava Jato e senador, venceu no primeiro turno com 3,1 milhões de votos e assumirá o Palácio Iguaçu em 1º de janeiro de 2027. Ele já anunciou a intenção de enxugar a estrutura administrativa e adotar critérios técnicos na montagem da equipe.

Na Assembleia, o terreno lhe é favorável: PL e PSD, aliados de Moro e de Ratinho Junior, terão as maiores bancadas, seguidos pela federação PT/PCdoB/PV, com oito cadeiras, e pela federação PP/União, com seis.

Mac Donald pertence a esta última, legenda de centro-direita que tende à composição com o novo governo, mas que terá peso próprio nas negociações.

Foz amplia representação na Assembleia

Os números de Foz explicam por que o convite importa. Pela primeira vez, a cidade terá três deputados estaduais e um federal. Em 2022, eram apenas dois representantes, sendo Matheus Vermelho o único na Assembleia.

Segundo a apuração do TRE-PR, Matheus somou 50.829 votos, Mac Donald, 45.275, e Yasmin Hachem (PT), 43.175. Na Câmara dos Deputados, Vermelho (PL), pai de Matheus, foi reeleito com 71.640 votos.

Dentro do município, porém, o protagonista foi Mac Donald. O ex-prefeito foi o estadual mais votado em Foz, com 43.134 votos, quase quatro vezes o segundo colocado.

Engenheiro e empresário natural de Urussanga (SC), governou Foz por dois mandatos e vai para o primeiro mandato na Alep, segundo a própria Assembleia.

Matheus Vermelho, empresário e filho do deputado federal, cumpriu o primeiro mandato com atuação nas comissões de turismo e esporte e trocou o PP pelo PL em 2026, o que dá um componente curioso ao convite: ele chama para a base do novo governo justamente o partido que deixou.

Yasmin Hachem, por sua vez, deixa a Câmara Municipal para estrear na Assembleia pelo PT e deve se posicionar na oposição a Moro.

Candidatos de Foz concentraram votos na disputa estadual

A disputa local reuniu quase quatro dezenas de candidatos com domicílio eleitoral em Foz, 19 à Assembleia e 18 à Câmara Federal.

Na estadual, os candidatos da cidade concentraram 74% dos votos válidos no município. Ficaram pelo caminho nomes com votação local expressiva, como Ricardinho (PSD), com 11.071 votos em Foz, Cabo Cassol (PL), com 9.602, e Valentina, que também figurou entre os seis mais votados localmente.

Na corrida federal, o voto foi mais disperso, e os candidatos locais somaram apenas 46% dos válidos.

O caso mais emblemático é o de Flávio Ferrari, o Faca na Bota (União Brasil), o mais votado de Foz para a Câmara, com 21.056 votos, mas sem conseguir a vaga. Ferrari já havia ficado como suplente em três eleições estaduais anteriores.

O ex-prefeito Chico Brasileiro (PSDB), o mais experiente do grupo, com nove campanhas no currículo, somou 11.737 votos na cidade e também não se elegeu. Thiago Kodama (PP), candidato a vice na chapa municipal de 2024, teve 5.903 votos.

Foz confirma inclinação à direita

No plano majoritário, Foz confirmou sua inclinação à direita. Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 60,96% dos votos válidos na cidade, contra 31,46% de Lula. Moro teve 55,34%, mais que o dobro de Requião Filho (PDT).

Unidade não significa ausência de divergências

A aproximação entre Matheus e Mac Donald, contudo, comporta leituras menos otimistas.

A primeira é que bancada numerosa não significa bancada coesa: os três estaduais vêm de partidos distintos — PL, PP e PT — e o próprio sistema proporcional mostra que as vitórias dependeram das legendas, não apenas do voto local.

A segunda é que Mac Donald, com votação municipal muito superior à dos colegas, tem cacife para negociar diretamente com o Palácio Iguaçu, sem intermediação.

A terceira é que uma base totalmente alinhada ao governo pode reduzir o espaço de fiscalização, papel que acabará recaindo quase inteiramente sobre Yasmin Hachem.

Até o fechamento desta edição, não havia posicionamento formal de Mac Donald, do PP ou da equipe de transição de Moro sobre o convite feito durante a transmissão.

Quatro mandatos, uma agenda para Foz

O recado das urnas a Foz foi claro: a cidade quis ser ouvida em Curitiba e dobrou sua representação para isso. Agora, o desafio é provar que quatro mandatos valem mais que quatro vozes isoladas.

O convite de Matheus Vermelho, feito às claras e diante do eleitor, é um primeiro passo inteligente, porque a fronteira só arranca recursos do Estado quando fala com uma só voz em temas como segurança, turismo, infraestrutura e saúde.

Mas a unidade precisa ser em torno de uma agenda para Foz do Iguaçu, e não apenas em torno do governador.

Se a nova bancada conseguir isso, 2026 será lembrado como o ano em que a Terra das Cataratas deixou de ser periferia política do Paraná.

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