Crise do Ueno leva Santiago Peña a renunciar e abre disputa pela Presidência do Paraguai

Por Márcio Queiroz Vítor

Editoria: Internacional

Santiago Peña anuncia renúncia à Presidência do Paraguai em meio à crise do Ueno Bank e à pressão por impeachment. Entenda os desdobramentos.

Presidente do Paraguai, Santiago Peña, em meio à crise política envolvendo o Ueno Bank e ao anúncio de renúncia.

Foto: Divulgação

Pressionado por pedido de impeachment e pela crise no sistema financeiro, presidente paraguaio anuncia saída do cargo e abre caminho para sucessão presidencial.

Pressionado por um pedido de impeachment e pela crise que atinge o Ueno Bank, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) que deixa o cargo. A decisão ainda depende do Congresso, mas já reorganiza a sucessão em um país que vende estabilidade financeira como um de seus principais trunfos a investidores estrangeiros.

Peña, economista de 47 anos, foi eleito em abril de 2023 pelo Partido Colorado, de direita, e tomou posse em 15 de agosto daquele ano, no lugar de Mario Abdo Benítez. Seu mandato iria até 2028. A gestão ganhou credibilidade no mercado com a conquista de grau de investimento, avaliação que a imprensa atribui em parte ao trabalho do Banco Central.

Esse cenário mudou em outubro, quando o Ueno, um banco digital, entrou no centro de uma disputa sobre supervisão. Senadores do governo e da oposição passaram a pedir a substituição da cúpula do Banco Central, e o presidente da instituição, Carlos Carvallo, já havia trabalhado no próprio Ueno. Para o Brasil, o caso importa porque o Paraguai é vizinho da tríplice fronteira e parceiro em energia, por meio de Itaipu.

Renúncia e crise política

Segundo o comunicado publicado nas redes sociais, Peña afirmou ter tomado a decisão pensando na estabilidade do país, na paz social e na preservação das instituições democráticas, e pediu desculpas à população.

Reportagens paraguaias e latino-americanas dizem que a Câmara dos Deputados avançava com um pedido de juízo político, mas divergem sobre o estágio do processo: uma das apurações diz que a abertura já havia sido aprovada, outra fala em debate sobre a acusação.

O Ueno, por sua vez, foi alvo de intervenção do Banco Central, e o Ministério Público imputou e prendeu diretores da instituição, segundo o jornal La Nación. Cerca de três milhões de clientes ficaram sem acesso às contas, de acordo com a Vanguardia.

Também foi noticiado que Peña declarou à Contraloría ações da Ueno Holding com valor nominal de 6.144 milhões de guaraníes.

Pela Constituição, o vice-presidente Pedro Alliana assume o cargo. Um integrante da Junta de Governo do Partido Colorado, Rodolfo Friedmann, disse que a intenção seria que Alliana assumisse a Presidência e que Antonio Barrios ocupasse a Vice-Presidência, mas essa informação ainda não foi oficializada.

Ligações com o banco e posicionamento de Peña

A versão que aparece com mais força em defesa de Peña é a do próprio banco. Segundo a Reuters, o Ueno afirmou que Peña nunca teve relação com a instituição como acionista ou investidor, embora tenha sido sócio do grupo que controlava o banco até março de 2025.

O Banco Central informou que Carvallo se declarou impedido de decisões ligadas ao Ueno.

Até o fechamento desta reportagem, não localizamos uma explicação detalhada de Peña sobre as acusações específicas de ligação com o banco; o que há é o comunicado de renúncia. Em outubro, a Presidência também não respondeu a pedidos de comentário da Reuters.

Vale lembrar que a renúncia não equivale a condenação: o caso segue em apuração e nenhum órgão concluiu, até agora, que houve irregularidade por parte do presidente.

O impacto da crise na estabilidade do Paraguai

O Paraguai construiu sua imagem externa sobre estabilidade, e o caso Ueno testa essa promessa no ponto mais sensível, que é a fiscalização do sistema financeiro e a relação entre poder político e dinheiro privado.

A renúncia encerra uma etapa, mas não responde às perguntas que levaram à crise. As próximas decisões são o que importa agora: se o Congresso aceitará a saída, quem assumirá e se a apuração sobre o banco terá a independência necessária para chegar a conclusões.

É esse o teste que o país precisa passar, e é o que a imprensa regional deve acompanhar nos próximos dias.


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