Comitê de Lula admite que banir as bets custou votos no primeiro turno

Por Márcio Queiroz Vítor

Editoria: Política

Integrantes da campanha de Lula avaliam que a proibição das bets prejudicou o presidente no primeiro turno contra Flávio Bolsonaro.

Lula e proibição das bets

A medida anunciada como golpe de impacto na reta final da campanha passou a ser tratada, menos de 24 horas após o fechamento das urnas, como um dos fatores que explicam o tropeço do presidente no primeiro turno.

Integrantes da campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que a proibição das bets, anunciada nove dias antes do pleito, prejudicou o desempenho do petista na disputa realizada neste domingo (4). O diagnóstico, revelado pelo jornal O Globo e repercutido pelo portal especializado BNLData, chega no momento em que Lula se prepara para enfrentar o senador Flávio Bolsonaro no segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Banimento anunciado na reta final

Por meio de medida provisória assinada na sexta-feira, 25 de setembro, Lula determinou a proibição das apostas on-line, no mesmo evento em São Paulo em que lançou os programas Brasil sem Bets e Desenrola 3.0, voltado a famílias endividadas.

A lógica eleitoral parecia sólida: pesquisas de opinião apontavam as bets e o endividamento entre os principais problemas dos brasileiros.

A MP também cria um comitê coordenado pela Casa Civil para fiscalização, com atuação conjunta da Polícia Federal, Receita Federal e Coaf, e encerra um modelo que o próprio Congresso construiu a partir de 2018, com a criação das apostas de quota fixa.

Do ponto de vista geopolítico, a Tríplice Fronteira observa o movimento com atenção particular. Com o mercado brasileiro fechado por decreto, a oferta de apostas de operadoras sediadas em países vizinhos e o mercado clandestino tendem a ganhar espaço, criando um desafio adicional para a fiscalização em regiões de fronteira como Foz do Iguaçu.

Resultado das urnas acende alerta no comitê

As urnas não confirmaram a aposta do Planalto.

A apuração oficial colocou Flávio Bolsonaro na primeira colocação, com 47,24% dos votos válidos, o equivalente a 55.667.750 votos, enquanto Lula ficou na casa dos 45%.

Segundo a reportagem de O Globo, citada pelo BNLData, um monitoramento das redes sociais identificou influenciadores voltados à classe C pedindo voto útil em Flávio Bolsonaro como reação ao banimento das apostas.

O comitê teme ainda que o quadro piore quando os sites forem efetivamente retirados do ar. Pelo cronograma divulgado pelo governo, os apostadores puderam resgatar saldos até as 23h59 do dia 5 de outubro, com bloqueio de sites e aplicativos a partir de 6 de outubro.

Banimento não era consenso

A decisão nunca foi consenso dentro do governo.

Apenas o ministro Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação Social (Secom), e a primeira-dama Janja da Silva defendiam o banimento completo. Palmeira argumentava que a campanha precisava de uma ação de forte impacto na reta final, enquanto Janja sustentava que a medida teria amplo apoio do eleitorado feminino.

Os demais integrantes classificavam o banimento como radical e arriscado, por desagradar setores como os clubes de futebol. Mesmo assim, Lula optou por banir as apostas.

As pesquisas da última semana já sinalizavam o risco. A três dias da eleição, o Real Time Big Data mostrava Flávio numericamente à frente em uma eventual disputa de segundo turno, por 51% a 49% dos votos válidos, dentro da margem de erro.

Em Foz, vantagem de Flávio foi maior

Em Foz do Iguaçu, o resultado reforçou a tendência conservadora do município.

Na apuração parcial, com 72% das urnas contabilizadas, Flávio Bolsonaro tinha 60,75% dos votos na cidade, contra 31,65% de Lula, diferença significativamente superior à registrada no cenário nacional.

Impacto das bets ainda não pode ser isolado

O contraponto, porém, existe e precisa ser registrado.

A leitura de que as bets decidiram ou tiveram peso determinante no primeiro turno é, por enquanto, uma avaliação interna da campanha. Não há estudo público que isole esse efeito de outros fatores, como rejeição aos candidatos, situação econômica ou capacidade de mobilização da oposição.

Houve, inclusive, dados em sentido oposto antes da votação. Uma pesquisadora da Uerj ouvida pelo Nexo avaliou que ações do governo às portas do primeiro turno, como o reajuste do Bolsa Família e a proibição das bets, vinham repercutindo a favor de Lula. Um levantamento PoderData/Aya indicou que 43% consideravam a proibição favorável ao petista.

Do lado da oposição, a crítica foi de oportunismo. Flávio Bolsonaro lembrou que a regulamentação ocorreu no próprio governo Lula e reforçou que pretende acabar com caça-níqueis e cassinos on-line, mas não com apostas esportivas.

Já o setor regulado alertou que, com o banimento, o mercado ilegal continuará sem controle de CPF, sem bloqueio de beneficiários de programas sociais e sem mecanismos de proteção a jogadores problemáticos.

A disputa também segue no Judiciário, com o governo temendo que o Supremo Tribunal Federal (STF) derrube a medida provisória.

Uma decisão política sob julgamento das urnas

O episódio deixa uma lição que vai além das apostas: políticas públicas de grande alcance social, quando anunciadas a nove dias da urna, tendem a ser julgadas pelo eleitor menos pelo mérito e mais pelo cálculo.

Se o combate ao vício e ao endividamento é uma causa legítima, a forma escolhida — abrupta, sem transição e com evidente timing eleitoral — entregou ao adversário uma narrativa pronta junto a um eleitorado que se sentiu punido, e não protegido.

A autocrítica do comitê chega tarde para o primeiro turno. Resta saber se chegará a tempo de alterar o rumo do segundo.

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