Camada por camada, Prefeitura de Foz começa a devolver ao Mural das Cataratas a pintura original
Editoria: Social
Prefeitura de Foz inicia restauração do Mural das Cataratas para recuperar a pintura original da década de 1950. Trabalho deve durar seis meses.

Foto: Divulgação
Com técnicas especializadas de restauração, Fundação Cultural inicia recuperação de painel histórico da década de 1950. Trabalho deve durar seis meses.
Por Márcio Queiroz Vítor | Guarda Volume
Com bisturi, solvente e microscópio, a Prefeitura de Foz do Iguaçu, por meio da Fundação Cultural, deu início à fase prática da restauração do Mural das Cataratas, painel artístico que integra a fachada do prédio da instituição desde a década de 1950.
O objetivo é recuperar a pintura original, hoje encoberta por sucessivas camadas de tinta aplicadas ao longo das décadas, e valorizar o trabalho do artista que concebeu a obra. Para a missão, o município trouxe de Ouro Preto (MG) a restauradora Eva Zaldivar, especialista com atuação nacional e internacional em conservação de patrimônio histórico e artístico.
Um patrimônio que acompanha a história de Foz
O edifício que abriga a Fundação Cultural é um dos mais antigos endereços públicos de Foz do Iguaçu. Inaugurado em 1952, recebeu inicialmente o primeiro Fórum da Comarca, que atendia toda a região oeste do Paraná numa época em que a cidade ainda era um pequeno núcleo de fronteira, muito distante do polo turístico que se tornaria décadas depois.
O mural, que homenageia o maior símbolo natural do município, acompanhou essa transformação e, como acontece com muitas obras expostas em prédios públicos, foi sendo repintado ao longo do tempo sem critérios técnicos de conservação.
As primeiras leis municipais de proteção ao patrimônio datam dos anos 1990, mas, como reconhecem os próprios gestores, sua aplicação prática demorou a acontecer.
Restauração começa com análise das camadas de tinta
Segundo a restauradora, o trabalho começou meses antes, com pesquisa histórica, levantamento de documentos e obtenção das licenças exigidas para intervir em bem de interesse histórico.
Nesta semana, Eva Zaldivar esteve em Foz para a primeira etapa física, as prospecções. Com auxílio de microscópio, ela identificou quantas camadas de repintura cobrem o original e outras características da obra.
A boa notícia, segundo a especialista, é que o painel não apresenta danos estruturais, como infiltração de umidade ou rachaduras; o problema se restringe às tintas sobrepostas à pintura de origem.
A próxima fase será definir qual camada será preservada como definitiva, para então remover as demais, fragmento por fragmento, com bisturi e solvente.
A técnica empregada é a estratigrafia, que estuda as camadas sobrepostas para reconstituir a pintura original.
Trabalho deve durar seis meses
A restauradora compara o processo a um tratamento médico, cuja duração nunca é totalmente previsível, mas a estimativa é de seis meses de trabalho.
O cronograma prevê diagnóstico conclusivo, mapeamento de danos, documentação estratigráfica, definição da técnica e da metodologia de remoção, registro dos testes e de seus resultados, consolidação do suporte quando necessário, tratamento de fissuras e lacunas, estabilização das camadas pictóricas, reintegração cromática, acabamento final quando tecnicamente justificado, especificação de materiais e critérios de compatibilidade, documentação fotográfica antes, durante e depois da intervenção e, por fim, um plano de manutenção e conservação preventiva.
Recuperação pode abrir caminho para novos projetos
Para o diretor de Cultura da Fundação Cultural, Sérgio Teixeira, a parceria com uma profissional de Ouro Preto, cidade que é referência mundial em preservação do barroco brasileiro, abre caminho para troca de conhecimentos e práticas de conservação, e reforça que cuidar da memória também é um compromisso com o futuro.
O presidente do CEPAC, Alexandre Baltazar, destaca que esta é a primeira restauração com técnica estratigráfica realizada em uma edificação pública de Foz do Iguaçu.
De acordo com ele, outros prédios tombados ou em processo de tombamento guardam pinturas que também precisam de restauro, o que faz do mural o possível ponto de partida de uma série de intervenções.
Questões que ainda precisam de respostas
Há, porém, perguntas que o anúncio deixa em aberto. O comunicado não informa o nome do autor do mural, justamente o artista cuja obra se pretende valorizar, nem o custo da restauração e a origem dos recursos.
Também não está claro se haverá acompanhamento público das etapas, se a comunidade e pesquisadores locais serão envolvidos e o que acontecerá com a obra depois de restaurada, já que uma pintura exposta ao tempo e ao uso de um prédio público tende a voltar a se degradar sem manutenção constante.
A escolha de qual camada será mantida como definitiva também é uma decisão técnica e histórica relevante, que merece ser explicada à população quando for tomada.
Preservar a memória é também cuidar do futuro
Ainda assim, a iniciativa da Prefeitura de Foz do Iguaçu marca uma virada concreta numa cidade que durante muito tempo tratou o próprio passado como coisa secundária diante da força das Cataratas e do turismo.
Recuperar o mural com método, documentação e plano de conservação é reconhecer que Foz tem uma história urbana e artística que também merece ser visitada.
Se de fato for a primeira de uma série, a restauração pode inaugurar uma política de patrimônio que a cidade espera há mais de três décadas, desde que venha acompanhada de transparência, continuidade e recursos garantidos.