A seis dias das urnas, Guarda Volume debate eleição no Paraná, bets, fake news e futuro de Foz
Editoria: Política
Matheus Donato, Luciano Lima e Márcio Queiroz discutiram pesquisas eleitorais, redes sociais, liberdade individual, desinformação e os desafios que aguardam o próximo governador do Paraná
A seis dias do primeiro turno das Eleições 2026, o Guarda Volume Podcast reuniu uma mesa para discutir não apenas quem pode chegar ao Palácio Iguaçu, mas também as mudanças na forma como o eleitor consome política e decide seu voto. Pesquisa eleitoral, debates, redes sociais, bets, fake news, liberdade individual e as demandas de Foz do Iguaçu estiveram entre os assuntos que movimentaram o programa desta segunda-feira (28).
Matheus Donato, Luciano Lima e Márcio Queiroz participaram da conversa, marcada por divergências sobre diferentes temas e candidatos, mas também por uma constatação comum: a disputa eleitoral já não acontece somente nos palanques, no horário eleitoral e nos debates de televisão. Podcasts, cortes, vídeos curtos, WhatsApp e redes sociais passaram a ocupar espaço central na formação da opinião do eleitor.
O programa foi ao ar justamente no dia em que uma nova rodada da Paraná Pesquisas movimentou a disputa pelo Governo do Paraná. O levantamento registrou Sergio Moro (PL) com 46,2% das intenções de voto no cenário estimulado, seguido por Requião Filho (PDT), com 23,6%, e Sandro Alex (PSD), com 21,5%. Foram ouvidos 1.280 eleitores em 60 municípios entre 25 e 27 de setembro, com margem de erro de 2,8 pontos percentuais.
Debates perderam força na era das redes sociais?
Um dos primeiros temas discutidos foi o papel dos debates eleitorais.
A mesa analisou como a multiplicação dos canais de comunicação mudou a relação entre candidatos e eleitores. Se antes televisão e rádio concentravam grande parte da campanha, atualmente é possível acompanhar um candidato por entrevistas, podcasts, transmissões ao vivo e redes sociais sem necessariamente assistir ao horário eleitoral tradicional.
A ausência de candidatos em determinados debates também entrou na conversa. Os participantes discutiram até que ponto comparecer ou não a esses encontros pode representar uma estratégia eleitoral para evitar exposição e situações imprevisíveis.
Na avaliação apresentada durante o programa, o debate deveria funcionar como espaço para confrontar propostas e permitir que o eleitor conheça melhor as diferenças entre os candidatos. Entretanto, muitas vezes o conteúdo acaba sendo substituído por acusações, embates pessoais e tentativas de produzir momentos com potencial de repercussão nas redes sociais.
Pesquisa coloca disputa pelo Paraná no centro da mesa
A divulgação da Paraná Pesquisas levou o programa diretamente para a corrida pelo Palácio Iguaçu.
Os participantes analisaram os números de Sergio Moro, Requião Filho e Sandro Alex e discutiram diferentes possibilidades para o primeiro e um eventual segundo turno.
Uma das avaliações apresentadas na mesa foi de que Moro poderia encontrar maiores dificuldades caso a eleição avançasse para uma segunda rodada. O comentário foi uma análise política feita durante o programa e não uma conclusão da pesquisa eleitoral.
O levantamento divulgado nesta segunda-feira mostra Moro com 46,2%, Requião Filho com 23,6% e Sandro Alex com 21,5%. Considerando a margem de erro de 2,8 pontos percentuais, Requião Filho e Sandro Alex estão tecnicamente empatados.
A discussão também passou pelos oito anos do governo Ratinho Junior e pelo legado que ficará para seu sucessor. Os participantes mencionaram investimentos e avanços registrados no Paraná, mas também apontaram problemas que continuarão exigindo respostas do próximo governo.
Nesse ponto, Foz do Iguaçu ganhou espaço na conversa.
Saúde, infraestrutura, duplicação da BR-277, acesso ao aeroporto, mobilidade e turismo apareceram entre as áreas que ainda deverão estar na pauta da cidade na relação com o próximo governador.
Eleitor ainda procura candidato da própria cidade?
Outra discussão questionou uma lógica histórica da política regional: a necessidade de votar em candidatos próximos geograficamente.
Para parte dos participantes, as redes sociais modificaram profundamente esse comportamento.
Hoje, um candidato de outra cidade ou região pode construir uma base eleitoral em Foz do Iguaçu ao se identificar com determinada pauta, como proteção animal, segurança pública, educação ou economia.
Essa mudança também representa um desafio para políticos tradicionais que construíram suas carreiras principalmente sobre reconhecimento do nome e estruturas eleitorais convencionais.
“Não é mais pessoal. É digital”, resumiu um dos participantes durante a conversa.
Ao mesmo tempo, a mesa ponderou que construir toda uma identidade política em torno de uma única causa também pode produzir consequências. Quando um representante passa a ser associado quase exclusivamente a determinada pauta, o eleitor pode começar a responsabilizá-lo por todos os problemas relacionados àquele assunto, mesmo quando as soluções não dependem exclusivamente de seu mandato.
Bets abrem discussão sobre liberdade e responsabilidade
Um dos debates mais longos do programa começou com as apostas de quota fixa, popularmente conhecidas como bets, e rapidamente avançou para uma questão muito maior: qual deve ser o limite da interferência do Estado sobre as decisões individuais?
De um lado, foram apresentados argumentos relacionando o crescimento das apostas ao endividamento e à ludopatia, com a defesa de maior intervenção diante dos impactos sociais provocados pelo jogo.
De outro, surgiu a discussão sobre liberdade individual. Se uma pessoa adulta conhece os riscos envolvidos, até que ponto o Estado deve determinar o que ela pode ou não fazer com o próprio dinheiro?
A conversa acabou ultrapassando as apostas e chegou a exemplos envolvendo álcool, drogas, armas, acidentes e utilização do sistema público de saúde.
Uma das posições apresentadas foi de que maior liberdade deveria ser acompanhada de maior responsabilidade pelas consequências das próprias decisões.
Outro argumento questionou a ideia de que problemas individuais possam ser utilizados para concluir que toda a sociedade não estaria preparada para determinadas liberdades.
O ponto central acabou resumido em uma pergunta: até onde o Estado deve interferir na vida do cidadão?
A mesa não chegou a um consenso.
Fake news, religião e disputa por narrativas
A desinformação eleitoral também entrou no debate.
O programa discutiu a circulação de uma informação envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida. Nos últimos dias, espalhou-se a alegação de que o candidato pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A informação associando a proposta ao candidato foi apontada como falsa durante o programa. A discussão, porém, avançou para além da checagem do conteúdo.
Os participantes questionaram quanto uma informação falsa consegue efetivamente interferir na decisão de um eleitor, principalmente quando envolve assuntos sensíveis como religião e identidade.
Também houve críticas à tentativa de transformar o episódio em uma disputa entre católicos e evangélicos.
A questão levantada pela mesa é um dos grandes desafios das campanhas digitais: uma informação pode alcançar milhares ou milhões de pessoas antes que uma correção consiga chegar ao mesmo público.
Com isso, mesmo depois de desmentida, uma narrativa pode continuar circulando em grupos de mensagens, vídeos e publicações nas redes sociais.
Quem vence deve governar apenas para sua base?
A discussão sobre política nacional e local levou a mesa a outro questionamento: até que ponto um governante deve responder exclusivamente aos grupos que o elegeram?
Uma das posições defendidas durante o programa foi de que vencer uma eleição não significa receber autorização para governar somente para quem votou no vencedor.
Os participantes utilizaram exemplos dos diferentes campos políticos.
Um governo identificado com setores conservadores não poderia simplesmente abandonar políticas culturais. Da mesma forma, um governo de esquerda não poderia ignorar a importância econômica do agronegócio.
A discussão apontou para um problema recorrente da política brasileira: a dificuldade de transformar determinadas políticas públicas em projetos permanentes, independentemente do grupo que esteja temporariamente no poder.
Dependência de Brasília também entra na discussão
O debate chegou ainda à estrutura federativa brasileira e à dependência financeira dos municípios em relação à União.
Os participantes discutiram como arrecadação, repartição de receitas e legislação nacional limitam a capacidade de investimento das prefeituras e fazem com que prefeitos dependam constantemente da articulação com deputados, senadores e governo federal.
As emendas parlamentares também apareceram na conversa como parte dessa relação.
Na avaliação apresentada na mesa, essa dependência ajuda a explicar por que determinados problemas percebidos diretamente pelo cidadão no município não podem ser analisados exclusivamente como responsabilidade da prefeitura.
Passagem de Moro por Foz gera avaliações diferentes
Na reta final do programa, a discussão voltou diretamente para Sergio Moro.
O candidato esteve em Foz do Iguaçu na quinta-feira (24), cumpriu agenda eleitoral pela cidade e concedeu entrevista ao Guarda Volume.
A passagem de Moro produziu avaliações diferentes entre os participantes do programa.
Para parte da mesa, o candidato apresentou evolução em sua comunicação política e demonstrou maior conhecimento sobre questões específicas de Foz do Iguaçu. Foram lembradas suas manifestações sobre duplicação da BR-277, saúde pública, turismo e segurança.
Outra avaliação apresentada durante o programa reconheceu a capacidade política construída por Moro, mas ponderou que várias das promessas apresentadas para Foz também aparecem nos discursos de outros candidatos. Houve ainda questionamentos sobre a forma como ocorreu sua participação na plenária do Codefoz.
A passagem por Foz, portanto, gerou leituras distintas dentro da própria mesa: de um lado, a percepção de evolução política e aproximação com as demandas locais; de outro, a avaliação de que parte dos compromissos apresentados também é compartilhada pelos adversários.
O que Foz ainda precisa cobrar do próximo governador?
A discussão sobre os candidatos acabou levando o programa a uma questão que permanecerá independentemente do resultado das urnas: quais devem ser as prioridades de Foz do Iguaçu diante do próximo Governo do Paraná?
Os participantes reconheceram obras e investimentos realizados nos últimos anos, mas apontaram demandas que permanecem abertas.
Saúde, infraestrutura, mobilidade, turismo e BR-277 estiveram entre os assuntos mencionados.
A discussão mostrou também uma mudança de cenário. Depois de grandes projetos executados ou colocados em andamento nos últimos anos, o desafio passa a ser estabelecer quais serão as próximas grandes reivindicações de Foz e como transformar as promessas apresentadas durante a campanha em compromissos efetivos de governo.
Seis dias para o eleitor decidir
Pesquisa eleitoral, debates, redes sociais, bets, liberdade individual, religião, fake news, federalismo e investimentos públicos parecem assuntos distantes, mas terminaram conectados por uma mesma questão ao longo do Guarda Volume: como o eleitor toma sua decisão em um ambiente político cada vez mais fragmentado?
A campanha já não acontece apenas no horário eleitoral, nos comícios ou nos grandes debates de televisão.
Ela está nos grupos de WhatsApp, nos cortes de podcasts, nos vídeos de poucos segundos, nas transmissões ao vivo e na disputa diária pela atenção do eleitor.
É nesse ambiente que o Paraná entra nos últimos seis dias antes do primeiro turno de 4 de outubro.
A pesquisa discutida durante o programa registra Sergio Moro numericamente à frente, enquanto Requião Filho e Sandro Alex aparecem tecnicamente empatados. O levantamento representa o retrato do eleitorado no período em que as entrevistas foram realizadas e não determina o resultado das urnas.
Para Foz do Iguaçu, qualquer que seja o resultado da eleição, permanece uma pergunta levantada pela mesa do Guarda Volume: quais dos compromissos apresentados pelos candidatos durante a campanha serão efetivamente transformados em políticas públicas e investimentos depois das eleições?