A ferida que Lula reabriu: por que a Guerra do Paraguai ainda dói em Assunção
Declaração do presidente Lula reacendeu o debate sobre a Guerra do Paraguai. Entenda por que o maior conflito da América do Sul continua sendo uma ferida aberta para os paraguaios.

Declaração do presidente reacendeu um debate histórico que permanece sensível para os paraguaios quase 160 anos após o fim do maior conflito da América do Sul
Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a colocar a Guerra do Paraguai no centro das discussões entre Brasil e Paraguai. Durante um evento da fabricante de defesa Avibras, realizado em 24 de julho, em Jacareí (SP), Lula afirmou que o Brasil "gosta de paz", mas que "um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil", citando também invasões ao Uruguai e à Argentina durante o conflito.
A fala provocou forte reação entre parlamentares paraguaios, que consideraram a declaração uma simplificação de um dos episódios mais traumáticos da história do país. A repercussão demonstra que, mesmo após quase 160 anos do fim da guerra, o tema continua profundamente presente na memória nacional paraguaia.
Um trauma que ainda marca o Paraguai
Enquanto no Brasil a Guerra do Paraguai costuma ser lembrada como um capítulo importante da história do Império e da formação do Exército Brasileiro, no Paraguai ela representa o maior trauma coletivo da nação.
Para muitos paraguaios, o conflito simboliza a devastação do país, tanto pelo número de mortos quanto pelas consequências econômicas, territoriais e sociais que permaneceram por décadas.
Essa diferença de percepção ajuda a explicar a sensibilidade em torno da declaração presidencial. Parlamentares paraguaios argumentam que resumir o conflito a uma invasão promovida pelo Paraguai desconsidera a complexidade política da época, além do enorme sofrimento vivido pela população.
O maior conflito da história da América do Sul
A Guerra do Paraguai ocorreu entre 1864 e 1870 e envolveu o Paraguai contra a Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai.
Foi o maior e mais mortal conflito armado da história da América do Sul.
Naquele período, o Paraguai era governado por Francisco Solano López, que buscava fortalecer o país como potência regional. Sem acesso ao mar, o Paraguai dependia da navegação pelos rios controlados pelos países vizinhos para manter seu comércio.
Ao mesmo tempo, o Império do Brasil, comandado por Dom Pedro II, buscava garantir a livre navegação até Mato Grosso e apoiava politicamente o Partido Colorado no Uruguai, adversário dos "blancos", aliados de Solano López.
Diferentes interpretações sobre o início da guerra
As versões sobre o início do conflito variam conforme a perspectiva histórica adotada.
No Brasil, costuma-se apontar como marco inicial a captura de uma embarcação brasileira pelo governo paraguaio, em 1864.
Já no Paraguai, muitos historiadores defendem que o conflito começou com a intervenção militar brasileira no Uruguai, considerada uma ameaça ao equilíbrio político da região.
Apesar das divergências, há consenso entre pesquisadores contemporâneos de que a guerra foi resultado de uma combinação de fatores diplomáticos, militares, econômicos e geopolíticos, não podendo ser atribuída a um único acontecimento.
Uma tragédia sem precedentes
O maior impacto da guerra para o Paraguai foi humano.
Estimativas históricas apontam que centenas de milhares de paraguaios morreram durante o conflito. Grande parte das vítimas não morreu em combate, mas em consequência da fome, das doenças e das precárias condições sanitárias enfrentadas durante a guerra.
O país também perdeu parte de seu território, teve sua economia profundamente destruída e permaneceu sob ocupação militar das forças aliadas após o término do conflito.
Para diversos historiadores, a guerra quase inviabilizou a continuidade do Paraguai como Estado nacional.
O símbolo que permanece vivo
A memória da guerra também aparece em disputas envolvendo patrimônios históricos.
Entre eles está o canhão conhecido como "El Cristiano", fundido a partir de sinos de igrejas de Assunção durante o conflito e levado ao Brasil como troféu de guerra.
Parlamentares paraguaios defendem sua devolução como forma de reparação histórica. No Brasil, o objeto é tratado como parte do acervo histórico militar.
O episódio simboliza como a Guerra do Paraguai continua influenciando as relações entre os dois países e demonstra que um conflito encerrado há mais de um século ainda desperta debates políticos, diplomáticos e históricos.
Márcio Queiroz Vítor é jornalista há 21 anos e gestor nas áreas de Marketing e Eventos há 26 anos. Possui MBA em Comunicação e Marketing, é coordenador comercial do Guarda Volume e PhD sobre Foz do Iguaçu.